09/05/09
28/03/09
Empacotando as coisas
Logo logo este blog vai mudar de endereço e de nome. Vai se permitir falar de outros assuntos e ganhar uma vizinhança. Quando acontecer eu aviso. Enquanto isso, estou tentando organizar a mudança. Até breve.
15/03/09
Ressonância magnética funcional como “detector de mentira”
Era uma questão de tempo e finalmente aconteceu. Na corte de justiça da Carolina do Sul (EUA).O réu é acusado de abusar sexualmente de um menor e os advogados de defesa ofereceram como prova de sua inocência um exame de ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês) que “mostra” que ele não está mentindo quando nega as acusações.
O laudo foi emitido pela empresa No Lie fMRI, sediada em San Diego, que afirma em seu site que esta tecnologia “representa a primeira e única medida direta de verificação da verdade e detecção de mentira em humanos da história!”. O caso foi noticiado no blog do Centro de Direito e Biociências da Universidade Stanford, um grupo de pesquisa em bioética, no dia 14 de março.
A matéria é ultrapolêmica já que não há estudos científicos que atestem a validade da fMRI como detector de mentiras, embora a defesa argumente que a tecnologia é precisa e geralmente aceita dentro da “comunidade científica relevante”, o que parece incluir basicamente os especialistas da empresa que prestou o serviço.
A história nos remete inevitavelmente ao polígrafo, o detector de mentiras mundialmente conhecido, usado por muitos países nos tribunais e nos serviços de inteligência ao longo de quase todo século 20, mas que acabou se revelando pouco confiável.
Segundo a No Lie fMRI, o novo detector de mentiras high tech não erraria porque se baseia em medidas do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) e não do sistema nervoso periférico, como faz o polígrafo. Mas esta segurança não é compartilhada por quase ninguém fora dos muros da empresa. Pelo contrário. Recentemente o uso da fMRI como “leitor da mente” vem sendo criticado por muitos cientistas, que veem aí o surgimento de uma “nova frenologia”.
Sempre vale lembrar que a fMRI não fornece uma visualização direta do cérebro (como um raio-X). A imagem resulta de um sofisticado processamento computacional e estatístico que inclusive tem causado polêmica recentemente. Um estudo divulgado em dezembro passado, por exemplo, sugere que boa parte das pesquisas já publicadas (com uso de fMRI na área de cognição social) usou análises estatísticas que enviesaram seus resultados. Sem falar que, em casos com esse, em que o teste foi solicitado pelo réu, dificilmente as evidências vão contrariar os interesses dele.Segundo o grupo de Stanford, o caso da Carolina do Sul corre em sigilo de justiça, então mais detalhes não há. O que se espera é que, no mínimo, a corte submeta o exame à opinião de especialistas independentes. Aguardemos.
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14/03/09
Exposição online do Museu de Ciências de Londres
Quem gosta de história da medicina e lê em inglês vai adorar o site Brought to Life - Exploring the History of Medicine, lançado há poucas semanas pelo Science Museum de Londres. Patrocinada pela poderosa Wellcome Trust, a exposição online traz um vasto conteúdo que vai desde a Antiguidade até o século XX (europeu) e muitas imagens do acerto do museu, num projeto bem elaborado e executado, dirigido sobretudo a professores e estudantes. Uma beleza.
Selecionei algumas imagens, como aperitivo:
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Em favor da reformulação do Código de Direito Canônico

Depois do tenebroso caso da menina de 9 anos estuprada pelo padrasto, cujo aborto induzido resultou na excomunhão da equipe médica e da mãe da garota – mas não do estuprador –, tenho a dizer que sou a favor de uma profunda reformulação do Código de Direito Canônico.
A pena máxima deve ser estendida não só ao estupro, mas a uma série de outros pecados muito disseminados atualmente, como o uso de qualquer método anticoncepcional, relações sexuais antes do casamento, divórcio, adultério, sincretismo religioso, bem como qualquer futuro benefício médico resultante de pesquisas com células-tronco embrionárias.
Todos estes delitos significariam excomunhão automática (sem burocracia), o que cassaria o direito de casar no religioso, batizar os filhos e ter missas rezadas por sua alma (de sétimo de dia e todas as demais periodicidades), entre outros.
Sugiro ainda que a corporação apostólica romana crie formulários-padrão para serem preenchidos e assinados antes da contratação de tais sacramentos, no mesmo estilo daqueles distribuídos em aeroportos de alguns países, em que o sujeito deve declarar se porta explosivos, armas etc. Sempre com uma advertência, bem destacada, de que a omissão de informações representa não apenas falsidade ideológica como também terrível crise de consciência – pois Deus está vendo.
Medidas severas como estas terão tremendo impacto no Brasil e em outras nações católicas, devendo causar revolta num primeiro momento, principalmente entre a classe média, mas se espera que, em longo prazo, os níveis de cinismo e hipocrisia da população caiam sensivelmente.
12/03/09
Deus e Darwin no debate da origem
(Sem tempo e sem idéias para blogar. Mas aproveito pra reproduzir aqui a reportagem que fiz para a Revista da Cultura, publicada na edição deste mês.)

2009 é um ano de festa para o mundo da biologia e o mote da celebração é duplo: os 150 anos da publicação de A origem das espécies e o bicentenário do nascimento de seu autor, o naturalista inglês Charles Darwin. Não é preciso ter lido o livro (de fato, poucos o fizeram) para saber do que e de quem estamos falando. Darwin é um daqueles ícones da história da ciência, como Galileu e Einstein, cujo legado permeia a cultura universal. A teoria da evolução foi um ponto de inflexão do pensamento ocidental, para além de suas fronteiras científicas ou filosóficas. Ao questionar a origem da vida e a supremacia humana, a revolução darwiniana foi também subjetiva e abriu feridas que ainda hoje custam a cicatrizar.
“É como confessar um assassinato”, escreveu o naturalista a um colega, 15 anos antes da publicação de A origem, sobre sua convicção de que os seres vivos não eram imutáveis, de que eles haviam evoluído gradualmente a partir de um mesmo ancestral, pressionados por forças naturais – e não sobrenaturais. “Ele estava ciente de que suas ideias afrontavam a noção criacionista, em que o homem era um ser diferenciado, criado à imagem e semelhança de Deus. Mesmo no meio científico da época, a adesão não foi unânime”, diz Maria Isabel Landim, bióloga do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e uma das organizadoras do livro Charles Darwin - Em um futuro não tão distante, lançado em fevereiro em meio às comemorações brasileiras.
Um século e meio depois, as ciências da vida são uma área do conhecimento tão vasta quanto exuberante e poderosa. Da ecologia à genética, da paleontologia à medicina, da célula ao comportamento, a teoria evolucionista é o paradigma comum que lubrifica as engrenagens da razão científica. Ao mesmo tempo, o pensamento criacionista continua bem vivo. E mais: recrudescido e reivindicando maior espaço na sociedade. Evidentemente, seus representantes se recusam a participar da festa darwiniana e protestam do lado de fora. Motivados pela fé religiosa, eles rejeitam vigorosamente a idéia de que a origem e a evolução da vida são alheias a uma intenção divina. A tensão cresce quando o criacionismo se projeta para os domínios da educação básica. No ano passado, a introdução do tema nas aulas de ciências em duas escolas privadas confessionais de São Paulo ganhou as páginas de jornais e revistas. Mas o assunto vem incomodando cientistas e educadores brasileiros desde 2004, quando a ex-governadora do Rio, Rosinha Garotinho, francamente evangélica e criacionista, implementou, sem muito sucesso, o ensino religioso confessional obrigatório nas escolas públicas do estado.
OBSCURANTISMO X IMORALIDADE
Se para os evolucionistas a doutrina da criação divina é fruto da ignorância e ameaça o mundo com uma sombra de obscurantismo e intolerância, para os criacionistas, o darwinismo se associa ao materialismo e está levando a sociedade ao colapso moral. Em artigo publicado na revista americana Forbes (5/02/2009), Ken Ham, fundador do Museu da Criação em Petersburg, no estado do Kentucky, cita em sua defesa um vídeo deixado na internet pelo atirador de 18 anos que matou oito estudantes numa escola da Finlândia, em 2007: “Eu, como um selecionador natural, vou eliminar todos os que eu vir despreparados, desgraças da raça humana e erros da seleção natural. Sou apenas um animal, um humano, um indivíduo, um dissidente. É hora de colocar a seleção natural e a sobrevivência do mais apto de volta nos trilhos”. Ham afirma que “o aluno estava apenas pondo em prática o que lhe fora ensinado na escola sobre suas origens e a falta de propósito e sentido da vida”.
Segundo o sociólogo e filósofo Maurício Vieira Martins, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), a escalada criacionista observada nos últimos 20 anos tem relações com transformações econômicas e sociais próprias da globalização, que trouxeram instabilidade, incerteza e desamparo para uma grande parte da população mundial. “Por um mecanismo de deslocamento, fenômenos já existentes, como o individualismo, a competição exacerbada e mudanças drásticas nas regras de convívio moral passam a ser atribuídos à difusão do evolucionismo, como se a teoria de Darwin fosse em algum nível responsável pelas contradições da sociedade atual”, diz. Também na visão do psicanalista Jorge Forbes, a sociedade globalizada é um fator importante para explicar a ascensão desse movimento: “Houve uma pulverização das relações humanas, em que a antiga estrutura vertical baseada no tripé pai-patrão-pátria dá lugar a relações horizontais em que o risco é muito maior, uma vez que não existem mais padrões universais de comportamento.” Neste mundo plano e incerto, o criacionismo oferece um refúgio na culpa, no conforto do narcisismo, enquanto o evolucionista tem de assumir a responsabilidade frente ao risco, explica.
Se na Grande Depressão de 1929 as igrejas dos Estados Unidos foram as únicas instituições que floresceram, não será um espanto se os criacionistas elevarem ainda mais o tom de voz agora que uma crise do sistema financeiro mundial se apresenta tão ou mais grave. A própria ciência observa que o cérebro humano parece ter inclinação para a crença no sobrenatural – particularmente em tempos difíceis –, ainda que o assunto, por muito tempo considerado tabu nos meios acadêmicos, só tenha começado a ser pesquisado recentemente. Atualmente, uma forte corrente da psicologia evolucionista vê a crença religiosa como um fenômeno adaptativo que, ao favorecer a coesão do grupo, aumentou as chances de sobrevivência de nossos ancestrais, tendo sido selecionada positivamente no processo evolutivo.
É claro que religião não é sinônimo de criacionismo – este aparece fortemente associado às igrejas pentecostais, que ganharam força e representatividade nos últimos anos. Tampouco o evolucionismo é sinônimo de ateísmo, como faz crer o discurso criacionista. O próprio Darwin, que estudou para ser pastor anglicano, afirmou numa nota autobiográfica: “Quanto aos meus sentimentos religiosos (...) considero-os um assunto que a ninguém possa interessar senão a mim mesmo. Posso adiantar, porém, que não me parece haver qualquer incompatibilidade entre a aceitação da teoria evolucionista e a crença em Deus”. Hoje é possível encontrar entre os cientistas não apenas ateus convictos, mas também religiosos praticantes, afirma Vieira Martins. “Um exemplo foi o biólogo Theodosius Dobzhansky, possivelmente um dos evolucionistas mais importantes do século 20, que todas as noites se ajoelhava e rezava antes de dormir.”
TIRO NO PÉ
Esta associação equivocada entre darwinismo e ateísmo, que tanto alimenta a indignação dos criacionistas, tem sido um desserviço prestado por muitos cientistas à causa da evolução. Enquanto aqueles que, de alguma forma, compatibilizam suas crenças com as premissas darwinianas se calam publicamente - talvez por entenderem que essa é uma questão de foro íntimo -, outros, como o britânico Richard Dawkins, autor de O gene egoísta e Deus - Um delírio, defendem energicamente o ateísmo por meio das idéias de Darwin, fazendo parecer que esta é uma posição unânime no meio acadêmico. “Não é sua intenção, mas ao fazer campanha pró-evolução, Dawkins tem estimulado a ascensão do criacionismo (...) Sua mensagem, repetida de modo simplório em igrejas, mesquitas e sinagogas, é a de que ‘a evolução significa ateísmo’, ao que os fiéis são levados a responder: ‘Bem, não aceitamos o ateísmo, então também não apoiamos a evolução’’’, disse à Folha de S. Paulo (08/02/2009) o britânico Denis Alexander, diretor do Instituto Faraday para Ciência e Religião, de Cambridge, que acaba de divulgar resultados de uma pesquisa mostrando que os criacionistas têm levado a melhor junto à opinião pública. Trinta e dois por cento dos britânicos defendem ou simpatizam com a ideia do criacionismo da Terra Jovem, segundo a qual o mundo foi criado em uma semana há menos de 10 mil anos, numa interpretação literal do livro de Gênesis. Para 51%, vale o design inteligente, versão mais sofisticada com roupagem pseudocientífica, em que a vida na Terra vem evoluindo ao longo de milhões de anos, mas Deus arquitetou e executou todo o processo. Estes números não diferem muito dos observados nos Estados Unidos e também no Brasil, segundo pesquisa realizada em 2004 pelo Ibope a pedido da revista Época.
Enquanto o movimento criacionista arrebata número cada vez maior de corações e mentes, aplacando a angústia que brota da ferida narcísica aberta pelo darwinismo na psiquê humana, os evolucionistas, por sua vez, usam as armas que lhe são próprias: a informação, o ensino da ciência e, sobretudo, a divulgação científica – por meio de exposições, debates públicos, livros e de maior penetração nos meios de comunicação, o que, de fato, tem ocorrido cada vez mais nos últimos anos. Resta saber quão eficazes podem ser essas ferramentas, considerando que a conjuntura econômica e social não caminha a seu favor.
“O ensino e a divulgação da ciência são aliados preciosos, mas não impedem a proliferação de tendências obscurantistas quando certas contradições de fundo não são atacadas, como a desigualdade, a falta de perspectivas, o individualismo exacerbado”, explica Vieira Martins. Segundo o sociólogo da UFF, na luta contra a mentalidade criacionista, é preciso que os cientistas, além da atividade de pesquisa e divulgação, atuem em favor de transformações mais profundas da sociedade. Para Forbes, há uma evidente debilidade na argumentação dos evolucionistas. “Eles esquecem que a importância da ciência não é apenas científica”, diz. “Ela tem também uma dimensão ética.” Na opinião do psicanalista, a falta de uma visão mais ampla do papel da ciência tem a ver com a pouca familiaridade dos pesquisadores das ciências empíricas com as ciências humanas. “Seu discurso reproduz, em espelho, a lógica dos sistemas de exclusão e os torna, paradoxalmente, cúmplices dos criacionistas.”
QUESTÕES DE ESTADO
Com tantas contradições a serem enfrentadas, o embate promete se prolongar por muito tempo. A questão do ensino do criacionismo nas escolas, no entanto, demanda abordagem de curto prazo, sob o risco de as coisas se complicarem ainda mais no futuro. Segundo a educadora Roseli Fischmann, da Faculdade de Educação da USP, é preciso estabelecer limite claro entre ciência e religião dentro da escola. Ela vê o ensino do criacionismo nas aulas de ciências como um equívoco pedagógico muito grave. "A lógica científica é humana e falível; a lógica religiosa é a da salvação e é própria de aulas de religião. O aluno tem de ser formado para saber distinguir uma coisa da outra." As escolas confessionais se defendem, dizendo que é preciso contrastar as duas versões, mas na prática a posição da instituição tende a gerar um viés que, segundo Fischmann, acaba por sonegar às crianças e aos adolescentes "o direito aos meios de acesso à ciência", algo que fere tanto a Constituição como a Declaração dos Direitos Humanos. "A escola privada não pode fazer o que bem entender, ela deve satisfações ao Estado", diz.
Já na escola pública, a Constituição é clara: o ensino religioso não pode ser obrigatório para os alunos, apenas facultativo – ainda assim, porém, há riscos. "É muito fácil haver manipulação por pessoas que, embora bem intencionadas, não percebem o que estão fazendo e, assim, vão moldando consciências no sentido oposto às exigências de autonomia moral, disseminando preconceitos e discriminação", afirma a educadora da USP. Preservar o ensino público laico não impede que os alunos tenham vida religiosa, mas protege as escolhas das famílias e das comunidades, cujas crenças e descrenças não coincidem necessariamente com as que venham a ser ministradas em escolas públicas, explica. Ainda mais num país como o Brasil, que abriga grande diversidade religiosa. Ameaçar o caráter laico do ensino de ciências, tanto na escola pública como na particular, não prejudica apenas a divulgação do progresso científico, que é destinado a todos, também sabota a liberdade de cada um de decidir no que crer ou não, bem como a capacidade de tolerar visões diferentes. “Não é possível imaginar que o Estado brasileiro se omita em questões de tamanha importância”, conclui Fischmann. ©
QUADRO: Vestígios de Darwin nas humanidades
Em meados do século 19, o meio literário europeu passava por transformação radical. A visão de mundo centrada no indivíduo, nos amores trágicos e nos ideais utópicos do romantismo dá lugar à observação objetiva da realidade, principalmente de suas mazelas. Sob a influência do positivismo e do progresso técnico e científico, não se podia mais negar a face perversa da Revolução Industrial, a impotência do ser humano diante dos poderosos, a falsidade, o egoísmo, o amor adúltero. Madame Bovary, de Gustave Flaubert, de 1857, considerada a primeira obra da literatura realista, levou seu autor aos tribunais, acusado de ofensa à moral e à religião. A origem das espécies, de Darwin, apareceu dois anos depois, contribuindo para radicalização do realismo, a ponto de dar origem a uma nova escola literária: o naturalismo.
Sob o olhar dos escritores naturalistas, a realidade é aguda e latejante. A situação em que se encontram os indivíduos é produto da hereditariedade e das condições do meio em que vivem, sob clara influência da perspectiva darwinista. Vêm à tona temas como a homossexualidade, o incesto, a loucura, por meio de personagens atormentados por instintos e desejos que revelam os traços da natureza animal do homem. O maior expoente do naturalismo europeu, considerado seu fundador, foi o francês Émile Zola e o Romance experimental, de 1880, tido como o manifesto literário do movimento. Para escrever sua obra-prima, Germinal, de 1885, o autor passou dois meses trabalhando em minas de carvão, sentindo na própria carne as condições desumanas de trabalho e moradia. Na literatura brasileira, o marco inicial do naturalismo é O mulato, de Aluísio Azevedo, de 1881, que denuncia o preconceito racial e a corrupção do clero na sociedade maranhense (a rejeição ao livro o levou a mudar-se para o Rio de Janeiro).
Além do darwinismo, o pensamento marxista está muito presente nos romances naturalistas. Mas também o próprio Karl Marx foi tocado pela teoria evolucionista. Em carta a Engels, o pensador alemão escreveu que A origem das espécies "contém na história natural a base para nossas opiniões sobre a história humana". Acredita-se que Marx quis dedicar o primeiro volume de O capital a Darwin, homenagem que o naturalista teria recusado. Mas há controvérsias, e alguns historiadores afirmam que o convite nunca foi feito.
Outro que viu na obra do naturalista uma luz para o desenvolvimento de seu trabalho foi Sigmund Freud. O pai da psicanálise também compreendeu como o evolucionismo, ao equiparar o homem aos animais, feriu gravemente a psiquê humana, o que ele chamou de “a segunda ferida narcísica” – e que não seria a última. A terceira foi aberta por ele mesmo no início do século 20, ao trazer a má notícia de que não somos sequer senhores de nós mesmos, pois a consciência é pequena e frágil quando comparada ao inconsciente. Já a primeira ferida foi obra da teoria heliocêntrica de Copérnico, no século 16, que tirou a Terra do centro do Universo. Não é por acaso que as ideias de todos eles foram tão mal recebidas e ainda são motivo de acalorados debates – com exceção de Copérnico, que até pelo tempo transcorrido, é o único que já pode descansar em paz.
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24/02/09
Campo eletromagnético e câncer de mama - o caso de San Diego
Algo de errado andou ocorrendo nos últimos anos no departamento de literatura da Universidade da Califórnia em San Diego. Entre 2000 e 2006, oito funcionárias que trabalhavam num de seus edifícios, o Literature Building, foram diagnosticadas com câncer de mama, informa um relatório elaborado pelo epidemiologista Cedric Garland a pedido da universidade. Segundo Garland, esse número está acima do que seria esperado pelo acaso. As idades das mulheres quando diagnosticadas eram 35, 43, 47, 56, 58, 60, 60 e 62 anos.
O epidemiologista pesquisou possíveis causas ambientais. Não encontrou fungos e toxinas suspeitas. A qualidade da água é boa. Nada de isótopos radioativos, solventes e reagentes carcinogênicos, que até podem ser encontrados em vários laboratórios do campus, mas não ali no departamento de literatura. O passo seguinte foi investigar a configuração das instalações elétricas, particularmente nos pontos de alta tensão. Garland acabou deparando com um motor compressor que alimenta o elevador hidráulico do edifício e que está localizado numa pequena sala no andar térreo, o mesmo onde trabalhavam as funcionárias que adoeceram.Geralmente esse tipo de motor fica instalado num andar subterrâneo ou porão, mas esse edifício não foi projetado dessa forma. O campo eletromagnético gerado pela máquina e a que os funcionários do térreo estão expostos é de 2,5 miliGauss. Raríssimos países têm recomendações para limites de exposição a campos eletromagnéticos no ambiente de trabalho. Um deles é a Suécia. Lá, o máximo aceitável é 2,0 miliGauss.
Estudos sobre os efeitos de campos eletromagnéticos (CEM) na saúde humana são poucos e conflitantes, mas há alguns que sugerem uma relação com câncer de mama. Um deles, publicado no Biochemical and Biophysical Research Communications em 2005, mostra que culturas de células tumorais expostas a CEM de baixa intensidade são mais resistentes à ação do tamoxifeno, uma das principais drogas usadas no tratamento do câncer de mama.
O relatório de Garland foi entregue à direção do campus em junho do ano passado (só agora divulgado), com uma série de recomendações que vão desde esclarecimentos às funcionárias do prédio, para que saibam do possível risco a que estão expostas, até a mudança do motor para um local mais seguro.
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Neste momento o caso está sendo investigado pela epidemiologista Leeka Kheifets; sua avaliação é esperada ainda neste semestre, informa o site Microwave News. Mas já são várias as críticas à indicação de Kheifets para a tarefa, já que ela trabalha como colaboradora do Eletric Power Research Institute, uma instituição independente e sem fins lucrativos, mas financiada por grandes empresas do setor elétrico. Vamos ver no que vai dar.
Tudo isso lembra muito a história dos telefones celulares, e da suspeita de que eles podem causar câncer - um imbróglio fenomenal e que a cada ano fica mais complicado. Eu sou do time que ainda não está convencido de que a radiação eletromagnética não-ionizante emitida por essas maquininhas é absolutamente inócua. Creio que há razões suficientes (o caso de San Diego é mais uma) para pelo menos ficar com a pulga atrás da orelha. Volto ao assunto num próximo post.
20/02/09
Olha a história da saúde na avenida aí gente!

Foi com imensa alegria que descobri que a minha escola de samba do coração, a Vai-Vai, trará ao sambódromo paulistano a história da saúde. (Reparem no Homem Vitruviano carnavalesco aí ao lado.)
O enredo de 2009 é Mens sana et corpores sano - o milênio da superação. O desfile será no sábado e está previsto para as 3h.
Para que vocês entendam melhor toda a complexidade desse enredo, reproduzo o texto publicado no site desta tradicional agremiação do bairro do Bixiga que foi campeã do carnaval paulista em 2008. Apenas destaquei em negrito alguns trechos mais interessantes.
Novos tempos... Nova era, a era da superação!!!
Os seres humanos, entes pensantes e dotados de inteligência, ao longo de sua conturbada história de transformação do planeta água que habita, por inúmeras vezes demonstrou que a sua faculdade de pensamento conduziu a humanidade por caminhos nada dignos de elogios.
Neste enredo, o grito audacioso da VAI-VAI ecoa a toda nação e ao planeta que é chegada a hora ! Este grito e uma coisa corajosa proposta a responsabilidade que cada um tem para que "Em uníssono", clamar pela panacéia de todos os males. Algumas civilizações deixaram registro na história sobre a conduta de higiene, conhecimentos de medicina e curas que elevaram a qualidade de vida de seus cidadãos.
Grande exemplo para nós foi a conquista da península ibérica pelos mouros, os quais lá permaneceram por oito séculos, influenciando de forma altamente positiva com sua progressista tecnologia, hábitos de higiene, sanitarismo, arte, arquitetura, matemática e principalmente medicina, benefícios que perduram ate nossos dias na cultura ocidental.
Os séculos que se seguiram a sua expulsão foram deploráveis no aspecto da saúde humana. A instituição do "corpo de pecado" da cristandade sepultando a natural nudez humana no peso da condenação por luxuria, a negação dos salutares banhos corpóreos aliados ao fechamento dos "banhos públicos", também herança do império Romano, resultou na paulatina abolição do costume. O resultado foi a disseminação da "Peste Negra" que dizimou 30 % da população européia.
O Homem vitruviano e o nosso paradoxo, uma real contradição, sendo saudável e viciado, antigo e moderno, são e enfermo, belo e grotesco, natural e mecânico, perfeito e anômalo e o nosso grande artífice da SUPERAÇÃO. A medicina que é misteriosa e encantadora aliviou as dores da humanidade ora lançando mão das Panacéias, ora das curas supra-fisicas. Desde os primórdios grandes xamas, sacerdotes, monges, gurus, astrólogos, magos, alquimistas e médicos... Todos pertencem e obedecem a grande mandala universal que define os rumos da evolução e do conhecimento humano. Na mandala há o equilíbrio de forças e agentes, há a contagem do tempo e suas exigências. Há a infusão da cura ou sua supressão, há luz e sombra... Terror e glória !
Agora é a hora! E antes que a morte chegue em asas ligeiras assolando, dizimando e sangrando corações a VAI-VAI olha para o futuro, respaldada pelas glórias do passado, e grita bem alto, caminhando e cantando, no rastro das alas e alegorias pelo piso limpo do sambódromo, seguindo os passos do homem vitruviano. Mãos para o céu, acolhendo as bênçãos e fluvios celestes, juntos com todo o povo do criado entoando a palavra-chave que a conduz neste carnaval: " SAUDE PARA TODOS "
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13/02/09
Santa Cristina, a admirável

Ela não é exatamente uma santa, isto é, beatificada e canonizada segundo os protocolos apostólicos romanos, mas é conhecida como a padroeira dos psiquiatras.
Santa Cristina, a admirável, nasceu em Liège, Bélgica, em 1150. Aos 22 anos teve uma convulsão devastadora e foi dada como morta. Conta-se que, no dia seguinte, enquanto seu corpo era velado numa igreja, ela despertou e levantou do caixão. Todo mundo se mandou do recinto, exceto sua irmã, a quem ela reclamou do cheiro de alho que pairava no ar. Não demorou muito para o público e os padres voltarem, para encontrá-la levitando próxima ao teto.
Cristina então contou que durante sua "morte" esteve no Inferno, um lugar escuro e terrível cheio de almas atormentadas. O pessoal a informou do equívoco: pela descrição aquilo mais parecia o Purgatório. De qualquer forma, a moça teria voltado para sofrer na Terra e assim aliviar o sofrimento dos vivos.
Essa história é contada num artigo publicado na revista Neurology (via Mind Hacks) em maio passado por Sallie Baxendale, do National Hospital for Neurology and Neurosurgery, em Londres, que discute a hipótese de que Cristina tenha sofrido de epilepsia, assim como vários outros santos e figuras místicas (ex. São Sebastião, São Paulo, Joana D'Arc e muitos outros).
A aparente alucinação olfativa da santa, que muitas vezes se refugiava no alto das árvores para ficar livre da pestilência do pecado humano, embora seja um sintoma curioso, na verdade não é muito valorizado pela autora em sua tese. Para ela, os relatos de vergonha e baixa auto-estima que Cristina experimentava depois das crises são mais sugestivos da epilepsia.
Baxendale não menciona Santa Cristina como a padroeira dos psiquiatras, mas a informação pode ser encontrada em alguns sites. No entanto, a autora finaliza o texto dizendo que é improvável que ela seja beatificada, mas se isso acontecesse, "seria apropriado que fosse adotada como santa padroeira da qualidade de vida dos pacientes epileticos".
A graciosa ilustração no alto é de Giselle Potter e foi publicada no livro Lucy's Eyes and Margaret's Dragon, The Lives of the Virgin Saints, também de sua autoria, que reúne biografias curtas de 13 santas virgens.
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12/02/09
Oba, oba, oba, Charles

Difícil escrever sobre os 200 anos de Darwin depois da enxurrada de textos que li (e outros pelos quais apenas passei os olhos) desde o último fim de semana e especialmente hoje. Mas eu também não poderia deixar a data passar em branco. Então o melhor que posso fazer são alguns comentários sobre coisas que me chamaram a atenção ao longo desta gloriosa semana de celebração.
Nicholas Wade no NYT (traduzido no UOL hoje): "Uma das vantagens de Darwin é que ele não teve de escrever propostas para bolsas de pesquisa ou publicar 15 artigos por ano. Ele pensou profundamente sobre cada detalhe de sua teoria por mais de 20 anos antes de publicar "A Origem das Espécies", em 1859, e por 12 anos mais, antes de sua sequência, "The Descent of Man", que abordava como sua teoria era aplicada ao ser humano."Uma das coisas que eu acho mais incríveis em Darwin foi essa capacidade de ruminar uma idéia por tão longo tempo -- com certeza é daí que vem boa parte de sua força. Pergunto-me quantas coisas a ciência pode estar deixando de entender por causa do ritmo alucinado de fazer pesquisa que se vê hoje.
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Silvia Colombo na Folha do último domingo: "A terceira [causa para a ascenção do criacionismo no Reino Unido] seria o "desfavor que vêm fazendo à ciência os ditos intelectuais neodarwinistas". Entre eles, o principal culpado seria o também britânico Richard Dawkins, autor de "O Gene Egoísta" e "Deus, um Delírio" (Companhia das Letras), que, por meio das ideias de Darwin, defende o ateísmo. "Não é sua intenção, mas ao fazer campanha pró-evolução, Dawkins tem estimulado a ascensão do criacionismo neste país. Sua mensagem, repetida de modo simplório em igrejas, mesquitas e sinagogas, é a de que "a evolução significa ateísmo", ao que os fiéis são levados a responder: "Bem, não aceitamos o ateísmo, então também não apoiamos a evolução"." Segundo ele, ao lutar contra algo com violência, Dawkins estaria estimulando um comportamento extremo oposto. "Um fenômeno social muito comum na história das ideias", conclui [Denis] Alexander [diretor do Instituto Faraday]Concordo plenamente. Dawkins está dando um tiro no pé. A ciência não pede conversão ao ateísmo; para muitos cientistas é perfeitamente possível compatibilizar seus credos com o darwinismo, mas poucos admitem sua fé publicamente. E não é para menos, o discurso ateísta quase sempre intimida, pois parte de uma premissa (às vezes tácita, às vezes declarada) de que as pessoas que crêem em alguma força transcendente são idiotas, ou contraditórias, ou fracas. Seria interessante fazer uma pesquisa sobre isso: quantos pesquisadores são realmente ateus? Talvez a gente se surpreenda com os resultados. Como muitos já disseram por aí, o próprio Darwin não ficaria contente com essa associação equivocada.
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De novo Silvia Colombo na Folha, hoje: "Enquanto aqui a efeméride ainda não causa grande movimentação no mercado editorial, no Reino Unido novos estudos iluminam diversos aspectos da trajetória do cientista."É impressinante a indiferença do mercado editorial brasileiro com as efemérides científicas de 2009. No Ano Internacional da Astronomia, vários livros do Carl Sagan, como Cosmos e Pálido Ponto Azul, estão esgotados. Sobre a dupla comemoção darwiniana, até onde sei só foi lançado Charles Darwin - Em um futuro não muito distante, uma edição do Instituto Sangari. Ah, vai ter um livro do Reinaldo José Lopes, que promete ser bem mais interessante (já me explico). Será que até novembro, quando A origem das espécies completar 150 anos, sai mais alguma coisa? Será que o retorno comercial é tão ruim a ponto de não interessar as editoras? Ou será que elas simplesmente não se ligaram nas datas?
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O livro Charles Darwin - Em um futuro não muito distante vai ser lançado em São Paulo na próxima terça (17/02) na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O Instituto Sangari gentilmente me mandou um exemplar, porque eu entrevistei um dos organizadores para uma materiazinha que vai na sair na Revista da Cultura no mês que vem.
Trata-se uma reunião de textos escritos por pesquisadores com base em palestras que eles deram em 2007 quando a exposição sobre Darwin, trazido ao Brasil pelo Sangari, percorreu várias capitais. O livro está muito bem editado, nota-se o esforço dos autores para usar uma linguagem simples, os capítulos cobrem vários aspectos e não se repetem, enfim é uma ótima fonte de informação. Mas, sinceramente, não empolga. Falta aquela fagulha, uma certa engenhosidade, que torna um livro de divulgação científica delicioso, e que eu encontro nos textos do Reinaldo, só para citar alguém que escreve muito sobre evolução e ainda por cima têm uma qualidade que eu aprecio muito: bom-humor.
Claro que, por se tratar de uma coletânea, uns textos fluem mais que outros, mas quem leva a melhor sem sombra de dúvida é a neurocientista Suzana Herculano-Houzel da UFRJ, justamente pela prática que ela tem. O psicólogo da USP César Ades, por exemplo, de quem eu sou tiete há muitos anos, fala de coisas muito interessantes, mas num tom monocórdico, assim como vários outros autores. Os dois capítulos que eu achei mais interessantes (Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira, e Armando Bittencourt) se concentram na viagens, de Darwin e Wallace, provavelmente porque até hoje eu quase não li nada sobre o assunto - para quem já conhece, talvez não tenha muita graça. Mas um texto como esse do Ulisses Capozzoli na Sciam, por exemplo, é infinitamente mais gostoso, até para quem já leu antes a respeito.
Também tenho de destacar o capítulo do Nelio Bizzo (ECA-USP), pelos prós e pelos contras. Ele trata de alguns mitos sobre Darwin difundidos através dos anos. Um deles é o de que A origem teria sido um best-seller. O autor faz um bom apanhado histórico que cobre várias edições da obra e conclui que ela não foi um sucesso de vendas. Outro mito é o de que Darwin teria contraído a doença de Chagas na América do Sul. Essa questão nem é tão polêmica, pouca gente acredita nisso. Bizzo é mais econômico nesse assunto e conclui apenas que "o que se pode afirmar, com grande margem de acerto, é que a saúde de Darwin foi oscilante, desde a infância, alterando períodos em que havia uma debilidade muito grande - a ponto de incapacitá-lo para o trabalho - e períodos de grande vigor e disposição".
O terceiro mito - este eu não tinha visto ninguém contestar - se refere àquela história de Karl Marx ter querido dedicado O capital a Darwin. Parece que não é verdade. Existe sim uma carta com essa oferta, mas ela não tem remetente e não cita o nome da obra que seria prefaciada. Há também uma resposta de Darwin (que um exame grafológico confirmou ser dele mesmo), mas também não dá para saber a quem ela foi dirigida. Na década de 70, vários historiadores se debruçaram sobre o mistério. Segundo um deles, o convite não teria partido de Marx, mas de um "controvertido" genro dele, Edward Aveling, que publicou um livro sobre o naturalista inglês - The student's Darwin. Embora Bizzo ofereça alguns detalhes intrigantes dessa polêmica, ele infelizmente termina com um parágrafo lacônico, decepcionante e sem referência: "Retomada em artigo em 1979, a questão da autoria, estabelecida de forma convincente, esclareceu, definitivamente, que Marx não foi autor de nenhum convite a Darwin".
O livro Charles Darwin - Em um futuro não muito distante vai ser lançado em São Paulo na próxima terça (17/02) na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O Instituto Sangari gentilmente me mandou um exemplar, porque eu entrevistei um dos organizadores para uma materiazinha que vai na sair na Revista da Cultura no mês que vem.Trata-se uma reunião de textos escritos por pesquisadores com base em palestras que eles deram em 2007 quando a exposição sobre Darwin, trazido ao Brasil pelo Sangari, percorreu várias capitais. O livro está muito bem editado, nota-se o esforço dos autores para usar uma linguagem simples, os capítulos cobrem vários aspectos e não se repetem, enfim é uma ótima fonte de informação. Mas, sinceramente, não empolga. Falta aquela fagulha, uma certa engenhosidade, que torna um livro de divulgação científica delicioso, e que eu encontro nos textos do Reinaldo, só para citar alguém que escreve muito sobre evolução e ainda por cima têm uma qualidade que eu aprecio muito: bom-humor.
Claro que, por se tratar de uma coletânea, uns textos fluem mais que outros, mas quem leva a melhor sem sombra de dúvida é a neurocientista Suzana Herculano-Houzel da UFRJ, justamente pela prática que ela tem. O psicólogo da USP César Ades, por exemplo, de quem eu sou tiete há muitos anos, fala de coisas muito interessantes, mas num tom monocórdico, assim como vários outros autores. Os dois capítulos que eu achei mais interessantes (Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira, e Armando Bittencourt) se concentram na viagens, de Darwin e Wallace, provavelmente porque até hoje eu quase não li nada sobre o assunto - para quem já conhece, talvez não tenha muita graça. Mas um texto como esse do Ulisses Capozzoli na Sciam, por exemplo, é infinitamente mais gostoso, até para quem já leu antes a respeito.
Também tenho de destacar o capítulo do Nelio Bizzo (ECA-USP), pelos prós e pelos contras. Ele trata de alguns mitos sobre Darwin difundidos através dos anos. Um deles é o de que A origem teria sido um best-seller. O autor faz um bom apanhado histórico que cobre várias edições da obra e conclui que ela não foi um sucesso de vendas. Outro mito é o de que Darwin teria contraído a doença de Chagas na América do Sul. Essa questão nem é tão polêmica, pouca gente acredita nisso. Bizzo é mais econômico nesse assunto e conclui apenas que "o que se pode afirmar, com grande margem de acerto, é que a saúde de Darwin foi oscilante, desde a infância, alterando períodos em que havia uma debilidade muito grande - a ponto de incapacitá-lo para o trabalho - e períodos de grande vigor e disposição".
O terceiro mito - este eu não tinha visto ninguém contestar - se refere àquela história de Karl Marx ter querido dedicado O capital a Darwin. Parece que não é verdade. Existe sim uma carta com essa oferta, mas ela não tem remetente e não cita o nome da obra que seria prefaciada. Há também uma resposta de Darwin (que um exame grafológico confirmou ser dele mesmo), mas também não dá para saber a quem ela foi dirigida. Na década de 70, vários historiadores se debruçaram sobre o mistério. Segundo um deles, o convite não teria partido de Marx, mas de um "controvertido" genro dele, Edward Aveling, que publicou um livro sobre o naturalista inglês - The student's Darwin. Embora Bizzo ofereça alguns detalhes intrigantes dessa polêmica, ele infelizmente termina com um parágrafo lacônico, decepcionante e sem referência: "Retomada em artigo em 1979, a questão da autoria, estabelecida de forma convincente, esclareceu, definitivamente, que Marx não foi autor de nenhum convite a Darwin".
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P.S. Meio deselegante fazer isso, mas com tantos nascidos pós-anos 80 na blogosfera, não custa nada: se não entendeu o título do post: ouça aqui.Enfim, depois deste festival darwiniano, será que vai sobrar alguma assunto para novembro? Aliás, será que Darwin vai ser tema de alguma escola de samba nesse carnaval? Olha, até que ficaria bem bonito...
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05/02/09
Manual do orgasmo - 1950
Das formas de o casal chegar ou não ao orgasmo simultâneo. Pérola achada no Flickr. Clique na imagem para ver os detalhes e as legendas.

Fonte: The Illustrated Encyclopedia of Sex by Drs. Willy, Vander, and Fisher, as well as Other Authorities. Cadillac Publishing Co., Inc., New York, 1950.
04/02/09
Dia mundial do câncer, ou: fortes suspeitas de uma guerra equivocada
Hoje é o Dia Mundial do Câncer. Este ano o enfoque da campanha global, coordenada pela UICC e pela OMS, é a importância da prevenção da obesidade e do sobrepeso na infância, fatores de risco para a doença na idade adulta.Como todos sabem, o câncer não é uma única doença, mas um conjunto de cerca 150 doenças com características bem diferentes, que têm como ponto em comum uma anomalia muito bem resumida numa frase do dramaturgo inglês Harold Pinter, morto em dezembro passado: "Células cancerosas são aquelas que esqueceram de morrer".
Por um dessas coincidências da vida, comecei a ler há alguns dias o livro The secret history of the war on cancer, da epidemiologista americana Devra Davis, da Universidade Pittsburgh. É um catatau de quase 500 páginas, das quais li até agora as 30 primeiras - o suficiente, porém, para ficar com os cabelos em pé e temer pelo que vem em seguida.
Segundo Davis, a história da luta contra o câncer tem sido marcada por batalhas erradas, com armas erradas e contra inimigos errados. A ênfase atual nos fatores genéticos e nos ligados aos estilo de vida e ao envelhecimento populacional joga para debaixo do tapete o papel de fatores ambientais (aditivos alimentares, pesticidas, poluição etc) na causa do câncer. E por que? Interesses econômicos, claro.
"O envelhecimento da população não explica por que o câncer cerebral atinge cinco vezes mais homens e mulheres no Estados Unidos do que no Japão. Tampouco entendemos por que os casos de câncer de testículo antes dos 40 anos aumentaram 50% em uma década nos países industrializados, por que as mulheres de hoje têm duas vezes mais câncer que suas avós, or por que muito mais jovens negras americanas morrem de câncer de mama do que as brancas. (...) O envelhecimento também não explica por que muito mais crianças desenvolvem câncer atualmente. (p. 5)Devra Davis não parece uma aventureira. O livro é a síntese de um trabalho de 20 anos no qual ela reuniu diversas evidências científicas, localizou documentos intencionalmente esquecidos e conquistou muitas inimizades.
(...) Defeitos genéticos herdados não respondem pela maioria dos casos de câncer de mama. Nove entre cada dez mulheres que desenvolvem a doença nasceram com genes perfeitamente saudáveis. Quando eu era menina, uma em cada dez mulheres tinha câncer de mama; quando minha amiga Andrea [que morreu da doença] chegou à meia-idade, era uma em sete. Ninguém conseque explicar por quê. Nós sabemos que vivemos num mar de estrógenos sintéticos e outros hormônios e que somos rotineiramente expostos a substâncias que não existiam antigamente. Os produtores desses agentes se confortam com o fato de que todos eles, testados individualmente, parecem benignos quando submetidos a várias medidas de potencial carcinogênico (...) No entanto, é desafiar o senso comum e a biologia básica dizer que, só porque um agente parece inócuo quando analisado individualmente, nós estamos seguros quando expostos a centenas deles de uma só vez" (p. 7).
"Nós nunca gastamos tanto dinheiro para tratar o câncer e desenvolver novas terapias - cerca de 100 bilhões de dólares por ano [nos EUA], mas quando o assunto é traçar as causas da doença, temos derrapado na ineficiência. Por que? Teria o fato de muitos líderes da guerra contra o câncer terem lucrado tanto dos produtores de agentes causadores do câncer como da indústria de drogas anticâncer alguma coisa a ver com a constatação de que tanto a incidência como as opções de tratamento aumentaram significativamente?
"Claro que não. Lembre-se que vivemos num mundo altamente tecnológico e interconectado. É mais seguro, e melhor para sua reputação na sociedade culta, continuar repetindo que essa é uma doença incrivelmente complexa..." (p. 11)
Medo, meus caros. Muito medo.
The secret history of the war on cancer foi lançado em 2007 nos EUA e acaba de ser traduzido na Itália.
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03/02/09
Darwinismo e criacionismo
Ando queimando os miolos para escrever uma matéria sobre o embate entre evolucionistas e criacionistas sem falar mais do mesmo. Ok, de um jeito ou de outro eu chego lá. Entretanto, o que mais me impressionou durante a pesquisa é o quanto essa onda criacionista é realmente forte. Eu nunca havia dado muito atenção a isso.
Achei uma penca de blogs sobre o assunto, todos com o mesmo discurso jocoso, mas muitas vezes bastante articulado, em relação à teoria da evolução. Na grande maioria, a defesa é não a daquele criacionismo bíblico, mas do design inteligente, uma versão bem mais sofisticada que utiliza justamente uma lógica (pseudo)científica e se apega apaixonadamente aos pontos supostamente mais vulneráveis do evolucionismo.
Não vou perder meu tempos analisando os argumentos deles. O que me interessa é a motivação dessas pessoas, a "mente criacionista", por assim dizer. Como ainda ninguém fez um estudo de ressonância magnética funcional sobre o assunto, recorro a um cara que não é muito bem visto pelos dois lados dessa guerra: Freud. Não sou profunda conhecedora da psicanálise, que eu entendo mais como uma filosofia, mas confesso que aprecio algumas idéias do velho Sigmund. Uma delas é a que fala das três feridas narcísicas.
Muito resumidamente: a primeira ferida narcísica foi infligida por Copérnico, por tirar a Terra, e logo, o homem, do centro do Universo. A segunda foi obra de Darwin, que revelou que o ser humano não é especial nem foi criado por Deus. A terceira ferida é assinada pelo próprio Freud, que afirmou que a consciência é uma manifestação menor e mais frágil da mente humana.
Se ninguém pode questionar o heliocetrismo de Copérnico, em compensação os pressupostos freudianos costumam receber muita pancada. O que importa aqui, no entanto, é a ferida darwiniana.
Todo o discurso criacionista, a meu ver, só serve para evitar a dor que eles sentiriam se esta ferida estivesse exposta. É simplesmente intolerável, para eles, pensar que o mundo, os seres vivos e especialmente o ser humano não foram criados com uma intenção divina. O comentário que vi num post sobre o assunto no blog da Mayana Zatz é emblemático: "Deve ser duro ser cientista. Ter que negar a existência de um Deus criador de tudo, e não ter nada para pôr no lugar." Olha aí a ferida.
Conversei com um sociólogo da UFF sobre assunto, para quem o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo. Nem é preciso dizer que aí estão os ingredientes para a expansão das religiões evangélicas, redutos criacionistas por excelência.
Então pergunto para o pesquisador se ele acha que os esforços para divulgar a ciência e a cultura científica, como é comum ouvir de muitos cientistas, podem ser realmente eficazes para combater a expansão do fundamentalismo criacionista, afinal, a ciência emancipa, liberta o indivíduo das amarras dogmáticas.
Acontece que (ainda eu perguntando) o que essa libertação e emancipação têm a oferecer concretamente a essas pessoas, em situação social e psiquicamente vulnerável, é a incerteza e o desamparo existenciais dos quais elas se esquivam, porque não toleram ficar com a ferida exposta.
Ele me responde: "na luta contra a mentalidade criacionista, é preciso que os cientistas, além da fundamental atividade de pesquisa e divulgação científica, atuem em parceria com outros segmentos da população em favor de transformações mais profundas da sociedade"
Considerando a atual crise econômica, o futuro é desalentador.
Todo o discurso criacionista, a meu ver, só serve para evitar a dor que eles sentiriam se esta ferida estivesse exposta. É simplesmente intolerável, para eles, pensar que o mundo, os seres vivos e especialmente o ser humano não foram criados com uma intenção divina. O comentário que vi num post sobre o assunto no blog da Mayana Zatz é emblemático: "Deve ser duro ser cientista. Ter que negar a existência de um Deus criador de tudo, e não ter nada para pôr no lugar." Olha aí a ferida.
Conversei com um sociólogo da UFF sobre assunto, para quem o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo. Nem é preciso dizer que aí estão os ingredientes para a expansão das religiões evangélicas, redutos criacionistas por excelência.
Então pergunto para o pesquisador se ele acha que os esforços para divulgar a ciência e a cultura científica, como é comum ouvir de muitos cientistas, podem ser realmente eficazes para combater a expansão do fundamentalismo criacionista, afinal, a ciência emancipa, liberta o indivíduo das amarras dogmáticas.
Acontece que (ainda eu perguntando) o que essa libertação e emancipação têm a oferecer concretamente a essas pessoas, em situação social e psiquicamente vulnerável, é a incerteza e o desamparo existenciais dos quais elas se esquivam, porque não toleram ficar com a ferida exposta.
Ele me responde: "na luta contra a mentalidade criacionista, é preciso que os cientistas, além da fundamental atividade de pesquisa e divulgação científica, atuem em parceria com outros segmentos da população em favor de transformações mais profundas da sociedade"
Considerando a atual crise econômica, o futuro é desalentador.
01/02/09
Mais sobre Mengele e os gêmeos de Cândido Godói
O Estadão de hoje traz uma matéria interessante que contesta a tese de que o médico nazista Joseph Mengele seria o responsável pela alta taxa de nascimentos de gêmeos no município de Cândido Godói (RS) no início dos anos 60, defendida no novo livro do historiador argentino Jorge Caramasa Mengele - O anjo da morte na América do Sul.
Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, esse tipo de manipulação genética não seria possível naquela época. O máximo que Mengele poderia ter feito é usar hormônios para estimular a ovulação das mulheres, mas isso resultaria num maior número de gêmeos fraternos (ou dizigóticos) e o que se observa naquela população, até hoje, é uma quantidade maior de gêmeos idênticos (ou monozigóticos).
"De acordo com o levantamento feito em Cândido Godói entre 1990 e 1994 pela pesquisadora do Hospital das Clínicas de Porto Alegre Ursula Matte, a proporção de gêmeos dizigóticos (53%) e monozigóticos (47%) lá é quase equivalente enquanto o normal é de 70% e 30%. "O nascimento de gêmeos se concentra em algumas famílias. Essas têm tanto monozigóticos como dizigóticos e isso dificulta a explicação do fenômeno", diz Ursula. "Provavelmente são famílias que quando se mudaram para lá levaram a predisposição genética para um ambiente isolado. A comunidade é pequena e os casamentos acabam acontecendo entre parentes distantes. Ursula relata que fenômenos semelhantes foram verificados em cidadezinhas da África e da Índia. 'Do ponto de vista genético, isso não é uma coisa rara'."A dificuldade em resolver o mistério reside no fato de as pessoas que testemunharam a presenção de Mengele na cidade não quererem falar sobre o assunto, então fica difícil saber se tudo não passa de um grande coincidência ou se, talvez, o doutor nazista tinha algum método realmente eficaz, mas que acabou sendo enterrado com ele.
Eu não li o livro (pelo que vi, foi editado apenas em espanhol e inglês), mas algumas questões me deixam curiosa. Pra mim não está claro se o boom de gêmeos começou logo após a chegada de Mengele à cidade. Em caso positivo, e supondo que ele realmente não tem nada a ver com a história, trata-se de uma coincidência admirável! Por outro lado, se o fenômeno já existia antes de sua chegada, não seria estranho pensar que ele se dirigiu à cidade de colonização alemã justamente por curiosidade, afinal, ele era obcecado pelo assunto. Vontade de ler esse livro.
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28/01/09
Memórias de família
Não é de hoje que a memória do tio C. não funciona muito bem. Nos últimos tempos, porém, apareceu um tipo diferente de esquecimento. Não são mais fatos, nomes, rostos; agora ele começou a esquecer como fazer certas coisas.Por exemplo, o café. Todo dia, antes do sol nascer, como de praxe, ele fervia a água, colocava o pó no filtro, despejava a água fervente, adoçava o café no bule, transferia-o para a garrafa térmica e finalmente se servia numa canequinha de metal verde. Um belo dia ele se atrapalhou todo.
Quando a tia N. chegou à cozinha, encontrou o fogão todo respingado de água, a pia suja de pó de café, o filtro de papel dentro do bule e cheio de açúcar. (Mais tarde ela encontraria a canequinha verde no lixo.)
Enquanto isso ele zanzava pelo quintal. “Que bagunça é essa?”, gritou, não tanto de raiva, mas por causa da surdez, dela e dele. “Esqueci como faz”, exclamou entre indignado e já conformado, como quem perde a carteira na rua. Nunca mais se arriscou a fazer café.
Um tempo depois foi a vez da barba. A tia N. estranhou a demora no banheiro e quando abriu a porta o encontrou segurando a escova de dente dela. “Você não ia fazer a barba, C.?” Ele ficou nervoso. “Eu não sei mais como é que faz!”, disse mal-educado, enquanto pisava duro em direção à sala. A partir de então, visitas semanais ao barbeiro. O medo de tia N., e o nosso também, é do que virá pela frente, de que ele se esqueça de coisas tão importantes como tomar banho, vestir-se ou usar os talheres. Para ser otimista.
Tia N. e tio C. são irmãos, solteiros, sem filhos, ambos acima dos 80. De uma família de dez filhos, os demais já se foram. Tirando uma certa ansiedade que ela não tinha quando era mais nova, sua cabecinha até que vai muito bem. Provavelmente porque teve uma vida intelectual acima da média dos brasileiros.
Da vida adulta dele, no entanto, quase nada se sabe além do fato de ter trabalhado como tecelão e vivido muito anos em diferentes pensões no Bom Retiro. Parece que teve uns problemas com sífilis e álcool, mas já levava uma vida pacata quando voltou a viver com a irmã há quase duas décadas.
Os médicos dizem que tio C. não tem Alzheimer, mas uma demência senil de progressão lenta. Nos testes que fizeram ficamos sabendo que ele não sabe em que ano estamos, nem quem é o presidente da república. Quando perguntado sobre sua profissão, afirmou ser lavrador, embora tenha deixado a roça aos 18 anos e trabalhado por mais de 30 em tecelagens em São Paulo.
Outro dia o tio C. deu uma saída, como costuma fazer de vez em quando, sem nunca ir além da esquina. E a tia N. fica tranqüila porque os vigias da loja da frente, que ela vive agradando com quitutes, são camaradas e ficam de olho nele. Quando voltou, depois de uns 10 minutos, ela perguntou, só para encher o saco, onde ele tinha se enfiado. “Fui procurar emprego. Eu preciso trabalhar!”, disse. “E conseguiu alguma coisa?”, ela deu corda. “Não, tá todo mundo em greve.”
27/01/09
Museu de crânios da Unifesp

O G1 publicou no sábado passado (24/01) essa matéria sobre o Museu de Crânios da Unifesp, ao qual infelizmente poucos têm acesso.
A sala é pequena e dispõe apenas de três estantes, que vão do chão até quase o teto, e uma mesa com algumas cadeiras. Em cada prateleira, crânios de homens, mulheres e crianças, reunidos para formar o Museu de Crânios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), criado na década 1930. A sala é trancada a chave e poucos têm acesso livre ao museu. Um deles é o professor-titular Ricardo Smith, chefe da disciplina de anatomia da universidade.
Quem esperava que um museu só de crânios seria escuro, empoeirado e com ares de abandonado se engana. O museu, conta o professor, é um dos maiores e mais organizados do mundo e atrai pesquisadores de vários países.
Cada um dos 440 crânios do lugar é numerado, e cada número corresponde a uma página de um antigo caderno, que está amarelado e é manuseado com cuidado pelo professor. “Eu cuido um pouco, e sou responsável pelo museu”, diz.
Procurando por um número aleatório, de qualquer andar da estante, dá para saber o nome, sexo, com quantos anos a pessoa morreu, o motivo da morte e até se ela era casada ou não. Alguns crânios são de pessoas que não foram identificadas, mas para o professor, isso não faz diferença.
Leia mais e veja também as fotos aqui.
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26/01/09
Mais Fritz Kahn
Continuo minha busca por mais informações sobre a vida e a obra de Fritz Kahn(1888-1968), um ilustrador e escritor alemão, autor de vários livros de divulgação científica (veja post anterior "O corpo-máquina de Fritz Kahn") e que estranhamente ainda não foi "wikipedizado"-- nem na sua língua materna.
Enquanto isso, mais duas ilustras dele, que achei no grupo "Vintage Anatomicals", do Flickr. Não sei que parte do corpo elas representam. A primeira tem umas células, no canto direito inferior, que parecem neurônios (e são muito lindas). A segunda tem uma bela "floresta de vasos" que eu me arriscaria a dizer que são do tubo digestivo, mas sinceramente não tenho a menor idéia. Qualquer informação será bem-vinda.
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Mengele e os gêmeos de Cândido Godói
Reproduzo aqui a notícia que vi no blog da História Viva, sobre um novo livro sobre Mengele no Brasil, e que tem como destaque a relação entre a presença do médico nazista numa pequena cidade do Rio Grande do Sul e o alto índice de nascimento de gêmeos registrado lá durante sua estadia. Escrito por um jornalista argentino, o livro já foi traduzido para o inglês. Espero que alguma editora brasileira já tenha se interessado pelo título."O jornal inglês Telegraph publicou ontem que o médico nazista Josef Mengele poderia ser o responsável pelo alto número de gêmeos na pequena cidade de Cândido Godói, no interior do Rio Grande do Sul. A tese é do historiador argentino Jorge Camarasa, autor do livro, Mengele: the Angel of Death in South América, estudioso da fuga de nazistas para a América do Sul.
Mengele fez experiências no campo de concentração de Auschwitz, antes de fugir da Europa, e estudava justamente o que causava o nascimento de gêmeos. O objetivo da pesquisa era aumentar a taxa de fertilidade da Alemanha nazista. O corpo de Mengele foi localizado em São Paulo no fim da década de 1980.
Camarasa conversou com a população de Cândido Godói, a maioria de descendência germânica, e muitos contaram que um educado alemão que se apresentava como Rudolph Weiss, e era especialista em reprodução, passou pela cidade na década de 1960, pouco antes do surgimento dos gêmeos em série. Este homem, que muitos na cidade acreditam que era Mengele, atendeu mulheres, acompanhou gestações e as prescreveu medicação. Há uma ocorrência de gêmeos a cada cinco nascimentos em Cândido Godói, bem superior à média de um nascimento de gêmeos a cada 80 partos."
A matéria no Telegraph, muito boa, aqui.
E mais informações sobre o livro, numa matéria do Globo, aqui.
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24/01/09
O homem-golfinho
Ele não revela seu nome, nem de onde vem (muito provavelmente, é americano). Diz ser pesquisador, não gosta de ser chamado de cientista e não concorda com a forma como a mídia aborda a ciência. Diz que está numa ilha do Pacífico, onde pretende passar entre três e cinco anos investigando como os golfinhos se comunicam uns com os outros e com outros cardumes de golfinhos, que podem estar a muitas milhas de distância.Diz ainda que quer provar que os céticos estão enganados. "A maioria dos cientistas duvida de que isso é possível nessa escala - centenas de milhas - em que estou interessado. São os mesmos cientistas que dizem que os golfinhos não têm uma linguagem verdadeira, apenas uma suposta sinalização unidirecional, em vez de uma real comunicação de mão-dupla."
Quando começou a escrever seu blog, no fim de novembro passado, o Homem-golfinho (Dolphin man), como prefere ser identificado, não tinha muito o que fazer além de conhecer as belezas e as delícias da ilha vulcânica em que vive numa humilde cabana e interagir com os nativos - um rapaz que ele chama de Kiki é seu assistente.
Passou-se um mês, em que o desfrute deu lugar ao tédio, até que seus sensores chegassem. Ele também faz mistério sobre o equipamento, revela apenas ser uma tecnologia desenvolvida para fins militares (teria sido usada pelos americanos no Iraque) e que pela primeira será empregada para fins pacíficos.
No dia 7 de janeiro, o Homem-golfinho estava triste, decepcionado, revoltado. Depois de dias montando e testando a parafernália, concluiu que os sensores não estavam funcionando. "Eu liguei e desliguei tudo, refiz todas as configurações e fiquei até tarde da noite remontando, trabalhando no dia de Ano Novo e tudo, e eles simplesmente ainda não falam. Por que? Por que comigo? Por que comigo e por que agora? Estou no limiar de começar algo que pode revolucionar a forma como entendemos a comunicação de mamíferos marinhos e... não tenho palavras".
O fim da angústia foi registrado seis dias depois: "Eu sou um gênio! Ou a pessoa que me forneceu os sensores é um imbecil. Os receptores estavam ajustados para a frequência errada. Simples assim".O Homem-golfinho parece ambicioso, e ao mesmo tempo quixotesco. No post seguinte, intitulado "O começo de algo grande", escreveu: "Depois de anos de planejamento, submissões [de projetos], modificações, ressubimissões, propostas, financiamentos, fundos, argumentos, apaziguamentos, reconciliação, vou finalmente mostrar não apenas aos céticos, mas ao mundo mais amplo da biologia, que a comunicação animal é (quase) tão avançada como qualquer coisa que o Homo sapiens trouxe ao mundo (...) As coisas não estão saindo exatamente como o planejado, mas bem o suficiente. Eu tenho um sensor em um golfinho e o sensor está funcionando."
Ainda não dá para saber se o Homem-golfinho é mesmo uma espécie de Dom Quixote da biologia marinha ou se vai realmente revolucionar o conhecimento sobre a linguagem destes simpáticos cetáceos. Se isso acontecer um dia, sua identidade certamente será revelada. De qualquer forma, já é uma história interessante: um pesquisador solitário e ambicioso, vivendo humildemente numa ilha que deve ser paradisíaca, amigo dos golfinhos. Hum, parece documentário do Discovery ou da National Geographic.
Para os interessados, o endereço novamente: thedolphinman.wordpress.com, (conheci via Nature Network).
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