Elisaldo de Araújo Carlini, 78 anos, é um homem que transpira tenacidade. Vindo de uma família humilde, como pesquisador ele descende de uma linhagem nobre da ciência brasileira e soube combinar a excelência acadêmica a uma consciência social apurada. Reconhecido como uma das maiores autoridades mundiais em abuso de drogas, fundou a psicofarmacologia no Brasil há mais de 40 anos.

Professor apaixonado, ele transita com tranqüilidade pelas fronteiras nem sempre amenas que marcam os territórios da pesquisa básica, da epidemiologia e das políticas públicas. Aposentado há mais de uma década, Carlini trabalha cerca de dez horas por dia e não pretende parar antes dos 95.
O CEBRID
Sua obra maior é o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), criado em 1978 na Escola Paulista de Medicina (EPM), hoje Universidade Federal de São Paulo. Na época ele já era conhecido por seus trabalhos pioneiros sobre os prejuízos cognitivos em ratos causados pelo delta-9-tetrahidrocanabinol, o princípio ativo da maconha.
O que o motivou a criar o CEBRID, entretanto, foi a escassez de informações sobre o consumo na sociedade brasileira não apenas da maconha, mas de todas as drogas de abuso. Para preencher esta lacuna, a estratégia foi dupla: restaurar o passado e dar contorno ao presente.
Começou-se por um levantamento exaustivo da produção bibliográfica brasileira esquecida sob o pó das bibliotecas. A segunda estratégia foi pesquisar o consumo de drogas psicotrópicas, lícitas e ilícitas, entre os jovens. Em 2004, o CEBRID publicou o quinto levantamento nacional entre estudantes de ensino fundamental e médio de 27 capitais.
Todas estas informações vêm ajudando a dar mais foco a um debate ainda hoje turvado por uma forte carga emocional e ideológica, especialmente no caso da maconha. Carlini não concorda com a legalização, mas é favorável à descriminalização e ao uso terapêutico da droga, diferentemente da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas (ABEAD) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), para citar alguns de seus opositores.Polêmicas à parte, ele é extremamente respeitado por seus pares, seja qual for o lado em que estejam nessa discussão fervorosa. A própria ABEAD, cujas posições ele refuta vigorosamente, lhe concedeu, em 2003, uma homenagem pelo conjunto da obra.
Candidato indicado pela Organização Mundial de Saúde, foi eleito duas vezes membro titular do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas. (na foto ao lado, Carlini na Universidade de Yale, em 1961.)
ANOS DE FORMAÇÃO
O primeiro emprego de Carlini foi aos 15 anos, como office-boy da empresa White Martins, em São Paulo. O pai comerciante e a mãe professora acabavam de trazer os cinco filhos de São José do Rio Preto (SP), de onde a família partiu em situação difícil para tentar a vida na capital. “O trabalho mais intelectual que eu fazia era colar selos em duplicatas”, lembra-se com bom humor.
Depois arranjou coisa melhor: datilógrafo no extinto Banco de Crédito de Minas Gerais. À noite completava os estudos no antigo Colégio Caetano de Campos. Em 1952 ingressou na EPM, na época uma faculdade privada, com o firme propósito de se tornar um médico missionário na região amazônica.
Então teve que arrumar um emprego melhor e mais flexível para estudar, pagar a faculdade e sustentar a família, pois a primeira filha já nascera e a segunda viria em seguida. Bateu às portas das indústrias farmacêuticas e foi admitido como propagandista do laboratório suíço Geigy (depois Ciba-Geigy, hoje Novartis).
Na entrevista, garantira ao futuro chefe que cumpriria rigorosamente todas as metas de produção, mas não poderia cumprir horários. “No dia seguinte ele me chamou e disse que só não queria que eu prejudicasse minha saúde. Achei aquilo incrível”.
A missão amazônica ficou mais distante quando, já no segundo ano da faculdade, ele foi trabalhar como estagiário no Laboratório de Bioquímica e Farmacologia da EPM. Lá encontrou uma situação inusitada para a época: uma dupla de médicos exclusivamente dedicada à pesquisa e que acreditava que era a ciência o único meio de tirar o país do subdesenvolvimento. “Achei muito estranho e rapidamente me encantei”.
Um desses médicos era o farmacologista José Ribeiro do Valle (1908-2000); o outro, o bioquímico José Leal do Prado (1918-1987). Até o fim dos anos 1940, a EPM era totalmente orientada à prática clínica. Leal do Prado e Ribeiro do Valle inauguraram a pesquisa experimental na universidade que hoje lidera o ranking brasileiro de produção científica na área de saúde. O salário de estagiário era modesto, mas os mestres permitiram que ele folgasse um período por semana, com o qual complementava a renda treinando os propagandistas da Geigy.
A DIAMBAA principal linha de pesquisa do laboratório, financiada pela Fundação Rockfeller, era a hipertensão arterial em modelos animais. Ribeiro do Valle, entretanto, alimentava um interesse paralelo por algumas plantas medicinais.
Ele e Carlini chegaram a plantar nos fundos do laboratório alguns pezinhos de diamba, como era conhecida a maconha na época. Um dia um mestre-de-obras advertiu o professor: “Doutor, o senhor está aí a plantar diamba? Então tome cuidado, porque já tem muitos fregueses visitando o seu canteiro”.
A psicofarmacologia só apareceu na vida de Carlini quando, numa de suas visitas diárias à biblioteca, ele topou com o primeiro número da revista Psychopharmacologia (hoje Psychopharmacology). Para amenizar a euforia do rapaz, Ribeiro do Valle o aconselhou a continuar estudando a hipentensão, pois com ela aprenderia os princípios básicos da pesquisa científica. Não existia psicofarmacologia no Brasil. Era preciso esperar uma oportunidade para sair do país. (na foto ao lado, José Ribeiro do Valle, o orientador de Carlini na EPM.)
O surgimento dessas drogas e o notável avanço das técnicas neuroquímicas levaram à descoberta de vários neurotransmissores e receptores, jogando uma forte luz sobre o funcionamento do sistema nervoso central. Sob esse clima Carlini chegou aos Estados Unidos, em 1960, com uma bolsa da Fundação Rockfeller.
Na Universidade de Yale, considerada a vanguarda da época, ele fez o mestrado com o eminente farmacologista Jack Peter Green. A ênfase de sua tese era na neuroquímica de sinapses isoladas (sinaptossomas) do cérebro de ratos, mas logo percebeu que aqueles equipamentos sofisticados seriam inviáveis no Brasil.
Além disso, preferia observar as respostas no animal inteiro e vivo. Começou aí uma aproximação com o Departamento de Psicologia de Yale, onde conheceu a psicologia experimental e uma série de técnicas comportamentais, como o uso de labirintos, não só bem mais econômicas, mas também mais agradáveis ao seu paladar científico.
No retorno ao Brasil, em 1964, dois duros golpes: três dias depois de sua chegada os militares tomaram o poder. E a EPM, em dificuldades, não tinha como absorvê-lo. Desempregado e agora com três filhos, aceitou um trabalho de rotina, que felizmente durou pouco tempo, no Instituto Biológico de São Paulo.
No mesmo ano foi para a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, criou a primeira pós-graduação em psicofarmacologia do país e começou a estudar a maconha usando as técnicas comportamentais aprendidas em Yale. Tudo estava indo muito bem na Santa Casa até que, sob nova direção, toda pesquisa foi subitamente extinta da instituição em 1970.
Dessa vez encontrou abrigo na EPM e deu continuidade a uma intensa produção científica sobre a maconha e algumas outras plantas, ampliando o interesse herdado de Ribeiro do Valle. Seus artigos sobre o efeito da maconha na memória e no aprendizado de ratos - usando labirintos, muitos deles construídos por ele próprio - foram e ainda são muito citados na literatura.
A POLÍTICA
Quando fala sobre o Brasil, Carlini nos lembra Policarpo Quaresma, exceto pelo fato de que, ao contrário do personagem de Lima Barreto, a lucidez não o abandonou. “Desde moleque sempre achei que o brasileiro não merecia o Brasil. Esta é uma terra santa, por suas riquezas naturais, pela cultura herdada do índio, do africano, do europeu. E no entanto nós sempre fomos meio malandros, nós não respeitamos o país”.
Com o fim da fase negra do regime militar no início dos anos 1980, percebeu que chegara o momento de se dedicar intensamente à política, sem pretensões profissionais, simplesmente como cidadão. Filiou-se ao recém-criado Partido dos Trabalhadores, ajudou a fundar o diretório estadual de São Paulo.Durante dois anos Carlini alfabetizou adultos, a maioria empregadas domésticas e trabalhadores da construção civil, usando o método de Paulo Freire. “Aí eu tive uma visão exata do que é a discriminação, o preconceito e a maldade da classe média brasileira”. (na foto ao lado, Carlini, em pé e a direita; Jack Peter Green, sentado à direita; e colegas de pós-graduação em Yale.)
Doava religiosamente 10% de seu salário ao partido e, armado de uma mesinha e algumas cadeiras, instalava-se nos pátios de supermercados para arrecadar fundos e filiados. “O PT foi construído com esse tipo de dinheiro”, enfatiza, referindo-se à sua decepção com o triste fim de certos princípios e condutas do partido.
Em 1995, Carlini foi eleito pela primeira vez membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas. Como a posição era incompatível com cargos de governo, abdicou dela para assumir a antiga Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (hoje Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA), a convite do então Ministro da Saúde Adib Jatene.
Sua gestão foi marcada por uma profunda reorganização do setor farmacêutico. Fazendo cumprir a legislação, mais de 200 laboratórios foram fechados - quer dizer, quando era possível fechá-los, pois se descobriu que boa parte deles funcionava virtualmente em terrenos baldios.
Ciente de que devia se pautar por critérios técnicos, não cedeu a pressões políticas e conquistou a antipatia de uma parte da esquerda. Depois do fatídico episódio da CPMF que motivou a saída de Jatene do ministério, manteve-se no cargo por poucos meses, deixando-o em 1997, apesar do apoio tanto da comunidade acadêmica como de setores expressivos da indústria farmacêutica. “Fui massacrado pelo ambiente de Brasília. Foi tenebroso”.
O que mais o entusiasma atualmente é a pesquisa de plantas com propriedades psicoativas; na verdade são duas linhas de pesquisa, tocadas pelo CEBRID. Numa delas, já foram feitos levantamentos etnográficos do uso tradicional destas plantas entre os índios Khraô do Tocantins e comunidades quilombola do Mato Grosso.
Carlini tem encontrado entraves na legislação e chegou a ser acusado de biopirataria. Em resposta, organizou em 2005 um simpósio sugestivamente intitulado “Plantas Medicinais no Brasil: o pesquisador brasileiro consegue estudá-las?”, em que estiveram presentes a FUNAI, lideranças indígenas e diversos ministérios e sociedades científicas.(na foto ao lado, Carlini e Orlando Bueno, hoje do depto. de psicobiologia da Unifesp, operando uma caixa de Skinner automatizada na Santa Casa de São Paulo, década de 60.)
Na segunda linha de pesquisa são conduzidos estudos clínicos cujo objetivo é a descoberta de novos medicamentos à base de plantas. Duas patentes já foram registradas. Um dos estudos em andamento envolve voluntários idosos com déficit de memória.
Antes de nosso encontro para este perfil, ele entrevistava alguns desses voluntários e, indignado, começou assim nossa conversa: “É preciso fazer alguma coisa com urgência. É inaceitável o estado de carência e abandono do velho nesta terra”.
Esta é a versão não editada e levemente atualizada de um texto meu publicado na revista Mente&Cérebro, ed. 161, junho de 2006.

3 comentários:
Olá!
Vi seu comentário no AHP e tive a grata surpresa de encontrar um blog sobre historia da medicina.
Tenho alguns vários posts, referencias e textinhos no Catatau sobre o assunto, talvez possamos ter boas interlocuções.
Muito bom encontrar coisa boa em português!
abraços,
Luciana, adorei o seu blog. Vim por indicação do Igor. Continue postando com a frequência de Setembro que quero ler mais coisas suas.
Pode deixar, Carlos. Depois de um longo período de testes acho que finalmente estou pegando o jeito :-))
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