O Nobel de medicina ou fisiologia deste ano teve gostinho polêmico. Metade do prêmio foi para os franceses pela descoberta do HIV, deixando o americano Robert Gallo (que sem dúvida teve uma participação importante na história, embora suspeita) a ver navios.
Não será a primeira nem a última polêmica em torno da premiação mais importante da medicina (tanto pelo status que confere aos laureados, como pela tranquilidade financeira de que eles gozam para o resto da vida).
Também houve polêmica em 1906, e das boas. Mas a história foi um pouco diferente, pois nenhuma "injustiça" foi aparentemente cometida pela Comitê Nobel. O prêmio de medicina ou fisiologia daquele ano foi dividido igualmente entre o espanhol Santiago Ramón y Cajal e o italiano Camillo Golgi. A peculiaridade, neste caso, foi a de os dois serem rivais científicos: defendiam idéias muito diferentes sobre a estrutura celular do sistema nervoso.

Já por meados do século 19, havia um consenso entre os cientistas de que a célula era a unidade funcional dos seres vivos. Mas quando se tratava de sistema nervoso, as evidências eram parcas e confusas. A aparência pálida, meio amorfa (e xexelenta, porque não dizer) do cérebro, mais os microscópios que não eram exatamente uma Brastemp, impediam os pesquisadores de ver a estrutura fina do conteúdo de nosso crânio.

Numa antiga cozinha transformada em laboratório, num hospital para doentes incuráveis em Abbiategrasso, perto Milão, e com recursos escassos, Golgi misturou bicromato de potássio com amônia para tingir algumas amostras de tecido nervoso. Depois as mergulhou numa solução de nitrato de prata e revelou o que ninguém nunca tinha visto: a silhueta dos neurônios, com seu núcleo celular e prolongamentos (axônios e dendritos).
Os experimentos de Golgi com o novo método reforçaram uma idéia já existente, segundo a qual o sistema nervoso estaria organizado em forma de rede, em que cada neurônio se conectaria com os demais de forma contínua. E o italiano tornou-se um fervoroso defensor da chamada teoria reticular.

Não demorou muito para que o método de Golgi, conhecido como reação negra, chegasse ao conhecimento do histologista espanhol, que tinha o olho clínico dos grandes desenhistas. Em Valencia, Cajal trabalhava meio isolado do mundo científico, pois naquela época ainda publicava somente em espanhol. Um pouco depois, já instalado em Barcelona, ele fez pequenas mudanças na reação negra e iniciou o período mais fértil de sua produção científica. Estupefado com o que viu ao microscópio, escreveu:
"la belleza de las preparaciones obtenidas tras la precipitacion del bicromato de plata depositado en exclusiva en los elementos nerviosos. Pero por outra parte,¡ qué túpidos bosques revelaban, en los que era dificil descubrir las terminaciones de su intrincado ramaje! ¿Cómo simplicar las imágenes? Puesto que la selva adulta resulta impenetrable e indefinible ¿Por qué no recurrir al estudio del bosque joven, en estado de vivero?"

Trabalhando com cerebelo e retina de animais em desenvolvimento, Cajal observou que entre um neurônio e outro havia um espaço, uma fenda, isto é, que as extremidades dos axônios e dendritos não se tocavam. Ele viu, pela primeira vez, a sinapse, o que lhe permitiu fundamentar o que chamamos de doutrina neuronal, por meio da qual, até hoje, entendemos como é formado e como funciona o sistema nervoso.
Golgi não deu o braço a torcer, nem depois que os resultados de Cajal mostraram, de forma inequívoca, o que ele se negava ver. Era meio cabeça-dura, o italiano. Nem mesmo na cerimônia do Nobel, em Estocolmo, ele aceitou a derrota. Em sua apresentação, ironicamente intitulada "Doutrina neuronal - teoria e fatos", tentou demolir a idéias de seu adversário. Não foi ouvido. E Cajal, que nunca negou o crédito ao inventor da reação negra (tinha classe, o espanhol), entrou para história como o patrono da neurociências.

Todas as imagens são fac-símiles de desenhos de Santiago Ramón y Cajal, fotografados na exposição Paisagens neuronais, em cartaz no Instituto Cervantes de São Paulo. Saiba mais aqui.
Este post faz parte da blogagem coletiva "As maiores descobertas científicas" do Lablogatórios. Veja os outros post aqui
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4 comentários:
Fantástico, ótimo texto, ótimas imagens e ótima história! Ah, e ótimo assunto :)
Luciana,
Adorei a imagem ao lado, das bexigas. Que criativo, minimalista e pós-moderno...
Foi lançado recentemente um coffee table book com os desenhos do Cajal. Maravilhosos.
Eu e a Paula escrevemos um texto sobre o Cajal recentemente (para um livro didático). É incrível como os "olhos de artista", além de técnicas apuradas, ajudaram-no a descobrir o caminho correto...
A propósito, saiu o resultado do sorteio do livro
http://www.ediouro.com.br/as100maioresdescobertas/
Veja em:
http://lablogatorios.com.br/raiox/2008/10/18/e-os-ganhadores-dos-livros-foram/
Valeu pela participação!
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