11/11/08

Sobre heranças, sonhos e linces



Miguel Nicolelis e Cesar Timo-Iaria: linhagem científica


Eu acredito muito em herança. Não não me refiro a genética ou testamentos, mas à herança intelectual e científica. Falo da transmissão do conhecimento, e da postura diante dele, ao longo de gerações de indivíduos que não compartilham material genético. Talvez seja uma forma de transmissão psíquica de que falam os psicólogos, mas que ocorre por meio de outros vínculos que não os familiares. De certa forma, os cientistas também se agrupam em "famílias", sendo possível desenhar uma árvore genealógica científica, por onde são transmitidos certos ideais.

Não é coincidência, por exemplo, que Elisaldo Carlini, pai da psicofarmacologia no Brasil, seja cria direta de José Ribeiro do Valle (1908-2000) e de José Leal do Prado (1918-1987), dois pesquisadores que ousaram, nos anos 40, fazer ciência básica na antiga Escola Paulista de Medicina (EPM), hoje Unifesp, até então totalmente voltada à prática clínica e atualmente um dos maiores centros de produção de conhecimento na área de saúde no País.

Tampouco é casualidade que Ivan Izquierdo, argentino radicado no Brasil há mais três décadas e referência mundial no estudo dos mecanismos moleculares da memória, tenha se iniciado na carreira acadêmica, ainda em Buenos Aires, sob orientação de Bernado Houssay (1887-1971) (foto ao lado), prêmio Nobel de medicina e fisiologia em 1947.

Com Miguel Nicolelis, a história se repete. Nosso mais forte candidato ao Nobel nos próximos anos, pela pesquisa com interfaces cérebro-máquina, e idealizador de um audacioso projeto científico de responsabilidade social, é descendente, em primeiro grau, de Cesar Timo-Iaria (1925-2005), considerado o pai das neurociências no Brasil.


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Médico formado pela EPM, Timo-Iaria fez o doutorado em fisiologia na USP de Ribeirão Preto, sob orientação do argentino Miguel Rolando Covian (foto ao lado) -- que assim como Ivan Izquierdo, também é cria de Bernando Houssay. Nos anos 50, foi admitido como professor assistente na Faculdade de Medicina da USP de São Paulo (FMUSP) e depois partiu para o pós-doutorado na Universidade do Estado de Nova York para estudar neurofisiologia. "Foi convidado para ficar nos EUA depois que concluiu o pós-doutorado, mas voltou porque achava necessário criar a neurociência no Brasil", disse Nicolelis à Folha de São Paulo em 2005, por ocasião da morte do professor.

Timo-Iaria fez carreira na FMUSP e tornou-se referência nacional em fisiologia do sono. Foi o primeiro a descrever o sono REM (a fase dos sonhos) em roedores. Era um homem de grande erudição e crítico severo da extrema especialização dos cientistas.


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Conheci César Timo-Iaria, de longe, na década de 90. Eu era muito nova, ainda fazia iniciação científica; ele já estava aposentado, mas ainda estava na ativa. Foi em algum congresso do qual não consigo me lembrar. Recordo-me com muita clareza, porém, do seu ar austero, do tique que tinha numa das sobrancelhas, e do respeito com que os outros pesquisadores o tratavam.

Lembro-me também de uma discordância que havia entre ele e o meu então orientador, Luiz Menna-Barreto. Este, também especialista em sono, achava um absurdo Timo-Iaria dizer e repetir que os ratos sonhavam. Segundo Menna, o máximo que se podia dizer era que os roedores tinham atividade onírica, porque nenhum deles podia contar sobre seus sonhos. Eu, claro, concordava com meu orientador, mas hoje isso me parece uma questão de pouca importância. Desconfio, embora não pudesse perceber na época, que nem eles levavam a discussão muito a sério.

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Conheço um pesquisador da USP, também discípulo de Timo-Iaria e "irmão" mais novo de Nicolelis. Em uma conversa que tivemos no ano passado, logo depois de o Instituto Internacional de Neurociências de Natal ser inaugurado, ele lembrou do dia, há muitos anos, em que viu o colega extremamente cabisbaixo entrando na sala do chefe. Já doutor, estava desanimado com a falta de perspectivas de trabalho no Brasil. O que teria ouvido do mestre? Obviamente só ele poderia dizer, mas não é muito difícil imaginar o tom da conversa, a julgar pelo discurso de Timo-Iaria na abertura da Reunião Anual da Fesbe em 2002:

Acercando-me do fim de minha vida, não posso deixar de apelar a todos os aqui presentes, bem mais jovens do que eu, para que almejem tornar-se "linces", como eram considerados os membros da primeira academia do mundo. Que enxerguem muito longe, abrangendo um ângulo acadêmico de saber muito amplo e passando essa atitude para seus alunos.

Precisamos deixar de formar formiguinhas, treinadas para carregar pedacinhos de folhas de um lugar a outro quase que cegamente, e voltar a formar linces. E, talvez o que seja ainda pior, formiguinhas que redescubram freqüentemente o que já foi descoberto antes, por não mais lerem artigos que tenham mais de 5 anos de existência. (...)

Por tudo o que acabo de dizer, permitam-me pedir-lhes mais uma vez que tentem quebrar a medíocre tendência destes nossos tempos e tornem-se linces, linces de verdade, não apenas meras formiguinhas. Não é necessário pesquisar em diversos campos da ciência, mas é imperativo que se leia sobre todo o conhecimento humano.

Alguém duvida que Miguel Nicolelis se transformou num lince?


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Quem assistiu ao programa Roda Viva ontem, ouviu Nicolelis repetir várias vezes a palavra "sonho". O projeto de Natal é um dos grandes sonhos do pesquisador e que está virando realidade, ainda que os resultados devam demorar alguns anos, como sempre quando se investe em educação. Esse sonho é uma herança de Timo-Iaria (e possivelmente de Covian, de Houssay etc), que disse na mesma reunião de 2002:
Todos nós temos sonhos impossíveis. Eu também os tenho, apesar de minha pesada racionalidade. Um de meus sonhos irrealizáveis é criar uma escola para jovens geniais, que os ensine desde os 7 anos até a idade pré-universitária um amplíssimo leque de disciplinas que os preparem de fato para uma liderança incontestável, como a que norteou a criação da famosa École Normale de Paris, onde desde fins do século XVIII se formam os grandes líderes políticos franceses.

Os alunos dessa escola de meus sonhos aprenderiam meia dúzia de idiomas, matemática superior, física relativística e quântica, literatura clássica, história antiga e medieval, economia, música e muitas outras disciplinas, que os distinguiria, e muito, dos alunos que hoje completam o ciclo médio. Isso os prepararia claramente para cursos universitários de altísismo nível. E como seriam esses cursos? Nesse meu sonho todos os alunos teriam um curso básico poderoso de física, que é a ciência fundamental, e depois teriam cursos ainda básicos, abrindo-se em cursos progressivamente mais e mais especializados, porém, alicerçados nas ciências mais básicas, em especial a física.

Sei que esse é um sonho, cuja realização é por ora impossível. Quiçá dentro de alguns milhares de anos a humanidade crie juizo e o concretize. Se isso não ocorrer, então minha última esperança é que uma das próximas espécies o faça. Pena que não estarei por aqui quando isso ocorrer.

Cesar Timo-Iaria deve estar se revirando no túmulo. De alegria.


Veja aqui o discurso completo de Cesar Timo-Iaria na Reunião da Fesbe em 2002. Vale a pena.

4 comentários:

Karl disse...

Muito legal esse post, Luciana. Fiz iniciação científica com o prof. César e tenho várias influências dele até hoje (inclusive uma furadeira que ele me deu de presente de casamento!). Fui amigo do Miguel. Tinhamos reuniões "viajantes" na faculdade, da qual fazia parte também o Sameshima, Gerson entre outros. Gostaria da referência de que a UNIFESP é o maior centro de produção científica da área da saúde do Brasil. Abraço

Luciana Christante disse...

Legal, Karl. Quando eu finalmente fizer o perfil do Timo-Iaria (tenho fitas com entrevistas dele que alguns colegas me cederam), vou te entrevistar. :-) Sobre a referência, lembro-me que veio quando eu fiz o perfil do Carlini, em 2006, se não me engano saiu no jornal um pouco antes, resultado de uma dessas pesquisas de cientometria, que medira só produção em saúde. Mas, para não criar caso, até porque essas coisas mudam, corrigi o texto para "uma das maiores". Sempre grata pelas suas correções. Abraço. Luciana

Karl disse...

Coloquei uma referencia no Ecce Medicus (certas coisas têm que ficar bem claras, né? :)

Entrevista? Dérreal.....

Carlos Hotta disse...

Ótimo texto! Acho muito legal divulgar os pesquisadores brasilerios que iniciaram verdadeiras dinastias de qualidade acadêmica. Não temos costume de valorizar os nossos grandes.

 
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