30/09/08

A EPILEPSIA DE MACHADO DE ASSIS



Na semana em que se comemora o centenário da morte de Machado de Assis, publico aqui um trecho do texto sobre medicina e literatura que escrevi para a revista da Livraria Cultura (edição de outubro). De quebra, algumas informações sobre Dostoievski, que sofria da mesma doença do autor de O alienista.

A epilepsia foi outro mal que influenciou a obra de alguns autores, dos quais os maiores expoentes são Machado de Assis e Fiódor Dostoiévski. O escritor russo criou dois personagens epiléticos: Kirilov, de Os demônios (1872), e o príncipe Michkin, de O idiota (1869), descrevendo em ambos a aura extática, fenômeno visual presente em algumas formas do distúrbio, explica Elza Márcia T. Yacubian, neurologista do Fleury Medicina e Saúde e especialista em história da epilepsia.

A convivência de Machado de Assis com as convulsões foi dramática, especialmente no fim da vida, quando elas se tornaram mais freqüentes. “Ele fez tudo para esconder a doença, o que é compreensível, já que naquele tempo a epilepsia era erroneamente associada a uma personalidade criminosa e, além do mais, ele já carregava o estigma de ser negro”, diz a neurologista. Provavelmente por isso o bruxo do Cosme Velho não tenha retratado a enfermidade explicitamente em sua ficção; em compensação, a medicina está presente em muitos de seus livros, sempre de forma crítica e com a ironia que lhe era característica, como em Memórias póstumas de Bráz Cubas (1881), O alienista (1882) e Memorial de Aires (1908). Em Quincas Borba (1891), escreveu: “Fique desde já admitido que, se não fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclui que as catástrofes são úteis, e até necessárias”. Nas crônicas, ele foi um ardente defensor da homeopatia, pois conhecia bem os efeitos colaterais dos remédios alopáticos da época. “Eu vejo Machado como uma pessoa que venceu a doença com sua literatura. Um exemplo para os pacientes que ainda hoje enfrentam muitos preconceitos”, conclui Yacubian.

Conversei longamente com Yacubian, uma delícia de entrevista (o que incluiu Van Gogh, que, ao que tudo indica, também tinha epilepsia). Ela me falou ainda de uma carta que Machado escreveu a Mário de Alencar (filho de José de Alencar), já no fim da vida, em que o escritor compartilha a experiência de Flaubert (outro epilético). Assim ela me ditou, por telefone:
"Meu querido amigo, hoje à tarde reli uma página da biografia de Flaubert. Achei a mesma solidão e tristeza, e até o mesmo mal, como sabes, o outro."
Segundo a neurologista, o câncer na língua que matou o bruxo do Cosme Velho foi conseqüência das repetidas lesões causadas pelas convulsões.

29/09/08

PAISAGENS CIENTÍFICAS



Uau. Eu nunca vi tantas imagens científicas maravilhosas como nos últimos dias. Além do prêmio da Science, que muita gente já viu por aí, teve também o prêmio Lennart Nilsson, de uma fundação sueca, cujas imagens são mais técnicas, mas ainda assim interessantes.

Depois eu topei com a exposição do Wildlife Photographer of the Year 2008 no metrô Vila Madalena, aqui em São Paulo - as fotos são deslumbrantes, sem exagero. E para fechar a semana, o Instituto Cervantes, também em Sampa, inaugurou a exposição Paisagens Neuronais. Dei um pulo lá no sábado.



A exposição veio da Espanha e foi montada para comemorar o centenário do prêmio Nobel de medicina e fisiologia concedido ao espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) e ao italiano Camillo Golgi (1843-1926). Isso foi em 2006, mas só agora o material chegou a São Paulo.

É claro que o foco é Cajal, não só por questões nacionalistas, mas também porque ele foi o cara que realmente sacou a estrutura do sistema nervoso, particularmente dos neurônios e das sinapses. O mérito de Golgi foi ter desenvolvido a técnica, usada pelo espanhol, para visualizar tudo isso.



A primeira parte da exposição é composta por imagens contemporâneas, enviadas por cientistas de várias partes do mundo. Os organizadores também convidaram alguns intelectuais para fazer comentários (que aparecem como legendas), mas na minha opinião isso não agregou muita coisa, com raras exceções, o que não importa muito diante da beleza das imagens. Problema mais grave foram algumas escorregadas na tradução das legendas para o português, o que fica feio para o Instituto Cervantes. Mas, enfim, às imagens:


Isso é uma retina de macaco. Eu bati o olho e achei que daria uma bela saia.


Essa aqui é a que tinha o comentário mais legal, feito pelo escritor espanhol Luis Magrinyà, que escreveu: Esteban P., 37 anos, digita sua senha em um caixa automático da rotatória Ruiz Jimenez e lê: "Saldo esgotado no dia de hoje".


Parece uma mosca, mas é um "ensaio de afinidade para receptores de guia axonal", na legenda técnica que, como muitas outras, também não esclarecia muita coisa.


Aqui uma célula da retina de um camundongo aparece queimando como um sol.


Essas rosetas de fibras rugosas (?) receberam o seguinte comentário do escritor espanhol Enrique Vila-Matas: "Outono dos nervos".

Fotografei outras imagens (com permissão) e coloquei no meu Flickr.

A segunda parte da exposição tem vários desenhos de Ramón y Cajal. Muito bacana, mas isto eu coloco no próximo post, ainda esta semana.

24/09/08

O PAI DA PSICOFARMACOLOGIA BRASILEIRA


Elisaldo de Araújo Carlini, 78 anos, é um homem que transpira tenacidade. Vindo de uma família humilde, como pesquisador ele descende de uma linhagem nobre da ciência brasileira e soube combinar a excelência acadêmica a uma consciência social apurada. Reconhecido como uma das maiores autoridades mundiais em abuso de drogas, fundou a psicofarmacologia no Brasil há mais de 40 anos.


Professor apaixonado, ele transita com tranqüilidade pelas fronteiras nem sempre amenas que marcam os territórios da pesquisa básica, da epidemiologia e das políticas públicas. Aposentado há mais de uma década, Carlini trabalha cerca de dez horas por dia e não pretende parar antes dos 95.

O CEBRID
Sua obra maior é o Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), criado em 1978 na Escola Paulista de Medicina (EPM), hoje Universidade Federal de São Paulo. Na época ele já era conhecido por seus trabalhos pioneiros sobre os prejuízos cognitivos em ratos causados pelo delta-9-tetrahidrocanabinol, o princípio ativo da maconha.

O que o motivou a criar o CEBRID, entretanto, foi a escassez de informações sobre o consumo na sociedade brasileira não apenas da maconha, mas de todas as drogas de abuso. Para preencher esta lacuna, a estratégia foi dupla: restaurar o passado e dar contorno ao presente.

Começou-se por um levantamento exaustivo da produção bibliográfica brasileira esquecida sob o pó das bibliotecas. A segunda estratégia foi pesquisar o consumo de drogas psicotrópicas, lícitas e ilícitas, entre os jovens. Em 2004, o CEBRID publicou o quinto levantamento nacional entre estudantes de ensino fundamental e médio de 27 capitais.

Todas estas informações vêm ajudando a dar mais foco a um debate ainda hoje turvado por uma forte carga emocional e ideológica, especialmente no caso da maconha. Carlini não concorda com a legalização, mas é favorável à descriminalização e ao uso terapêutico da droga, diferentemente da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas (ABEAD) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), para citar alguns de seus opositores.

Polêmicas à parte, ele é extremamente respeitado por seus pares, seja qual for o lado em que estejam nessa discussão fervorosa. A própria ABEAD, cujas posições ele refuta vigorosamente, lhe concedeu, em 2003, uma homenagem pelo conjunto da obra.

Candidato indicado pela Organização Mundial de Saúde, foi eleito duas vezes membro titular do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas. (na foto ao lado, Carlini na Universidade de Yale, em 1961.)


ANOS DE FORMAÇÃO
O primeiro emprego de Carlini foi aos 15 anos, como office-boy da empresa White Martins, em São Paulo. O pai comerciante e a mãe professora acabavam de trazer os cinco filhos de São José do Rio Preto (SP), de onde a família partiu em situação difícil para tentar a vida na capital. “O trabalho mais intelectual que eu fazia era colar selos em duplicatas”, lembra-se com bom humor.

Depois arranjou coisa melhor: datilógrafo no extinto Banco de Crédito de Minas Gerais. À noite completava os estudos no antigo Colégio Caetano de Campos. Em 1952 ingressou na EPM, na época uma faculdade privada, com o firme propósito de se tornar um médico missionário na região amazônica.

Então teve que arrumar um emprego melhor e mais flexível para estudar, pagar a faculdade e sustentar a família, pois a primeira filha já nascera e a segunda viria em seguida. Bateu às portas das indústrias farmacêuticas e foi admitido como propagandista do laboratório suíço Geigy (depois Ciba-Geigy, hoje Novartis).

Na entrevista, garantira ao futuro chefe que cumpriria rigorosamente todas as metas de produção, mas não poderia cumprir horários. “No dia seguinte ele me chamou e disse que só não queria que eu prejudicasse minha saúde. Achei aquilo incrível”.

A missão amazônica ficou mais distante quando, já no segundo ano da faculdade, ele foi trabalhar como estagiário no Laboratório de Bioquímica e Farmacologia da EPM. Lá encontrou uma situação inusitada para a época: uma dupla de médicos exclusivamente dedicada à pesquisa e que acreditava que era a ciência o único meio de tirar o país do subdesenvolvimento. “Achei muito estranho e rapidamente me encantei”.

Um desses médicos era o farmacologista José Ribeiro do Valle (1908-2000); o outro, o bioquímico José Leal do Prado (1918-1987). Até o fim dos anos 1940, a EPM era totalmente orientada à prática clínica. Leal do Prado e Ribeiro do Valle inauguraram a pesquisa experimental na universidade que hoje lidera o ranking brasileiro de produção científica na área de saúde. O salário de estagiário era modesto, mas os mestres permitiram que ele folgasse um período por semana, com o qual complementava a renda treinando os propagandistas da Geigy.


A DIAMBA
A principal linha de pesquisa do laboratório, financiada pela Fundação Rockfeller, era a hipertensão arterial em modelos animais. Ribeiro do Valle, entretanto, alimentava um interesse paralelo por algumas plantas medicinais.

Ele e Carlini chegaram a plantar nos fundos do laboratório alguns pezinhos de diamba, como era conhecida a maconha na época. Um dia um mestre-de-obras advertiu o professor: “Doutor, o senhor está aí a plantar diamba? Então tome cuidado, porque já tem muitos fregueses visitando o seu canteiro”.

A psicofarmacologia só apareceu na vida de Carlini quando, numa de suas visitas diárias à biblioteca, ele topou com o primeiro número da revista Psychopharmacologia (hoje Psychopharmacology). Para amenizar a euforia do rapaz, Ribeiro do Valle o aconselhou a continuar estudando a hipentensão, pois com ela aprenderia os princípios básicos da pesquisa científica. Não existia psicofarmacologia no Brasil. Era preciso esperar uma oportunidade para sair do país. (na foto ao lado, José Ribeiro do Valle, o orientador de Carlini na EPM.)

A psicofarmacologia surgiu na década de 1940 e teve seu auge nos anos 1950 e 1960. Várias classes de medicamentos psiquiátricos foram lançadas nesse período, como os antidepressivos tricíclicos e inibidores da monoaminoxidase e os ansiolíticos benzodiazepínicos.

O surgimento dessas drogas e o notável avanço das técnicas neuroquímicas levaram à descoberta de vários neurotransmissores e receptores, jogando uma forte luz sobre o funcionamento do sistema nervoso central. Sob esse clima Carlini chegou aos Estados Unidos, em 1960, com uma bolsa da Fundação Rockfeller.

Na Universidade de Yale, considerada a vanguarda da época, ele fez o mestrado com o eminente farmacologista Jack Peter Green. A ênfase de sua tese era na neuroquímica de sinapses isoladas (sinaptossomas) do cérebro de ratos, mas logo percebeu que aqueles equipamentos sofisticados seriam inviáveis no Brasil.

Além disso, preferia observar as respostas no animal inteiro e vivo. Começou aí uma aproximação com o Departamento de Psicologia de Yale, onde conheceu a psicologia experimental e uma série de técnicas comportamentais, como o uso de labirintos, não só bem mais econômicas, mas também mais agradáveis ao seu paladar científico.

No retorno ao Brasil, em 1964, dois duros golpes: três dias depois de sua chegada os militares tomaram o poder. E a EPM, em dificuldades, não tinha como absorvê-lo. Desempregado e agora com três filhos, aceitou um trabalho de rotina, que felizmente durou pouco tempo, no Instituto Biológico de São Paulo.

No mesmo ano foi para a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, criou a primeira pós-graduação em psicofarmacologia do país e começou a estudar a maconha usando as técnicas comportamentais aprendidas em Yale. Tudo estava indo muito bem na Santa Casa até que, sob nova direção, toda pesquisa foi subitamente extinta da instituição em 1970.

Dessa vez encontrou abrigo na EPM e deu continuidade a uma intensa produção científica sobre a maconha e algumas outras plantas, ampliando o interesse herdado de Ribeiro do Valle. Seus artigos sobre o efeito da maconha na memória e no aprendizado de ratos - usando labirintos, muitos deles construídos por ele próprio - foram e ainda são muito citados na literatura.

A POLÍTICA
Quando fala sobre o Brasil, Carlini nos lembra Policarpo Quaresma, exceto pelo fato de que, ao contrário do personagem de Lima Barreto, a lucidez não o abandonou. “Desde moleque sempre achei que o brasileiro não merecia o Brasil. Esta é uma terra santa, por suas riquezas naturais, pela cultura herdada do índio, do africano, do europeu. E no entanto nós sempre fomos meio malandros, nós não respeitamos o país”.

Com o fim da fase negra do regime militar no início dos anos 1980, percebeu que chegara o momento de se dedicar intensamente à política, sem pretensões profissionais, simplesmente como cidadão. Filiou-se ao recém-criado Partido dos Trabalhadores, ajudou a fundar o diretório estadual de São Paulo.

Durante dois anos Carlini alfabetizou adultos, a maioria empregadas domésticas e trabalhadores da construção civil, usando o método de Paulo Freire. “Aí eu tive uma visão exata do que é a discriminação, o preconceito e a maldade da classe média brasileira”. (na foto ao lado, Carlini, em pé e a direita; Jack Peter Green, sentado à direita; e colegas de pós-graduação em Yale.)

Doava religiosamente 10% de seu salário ao partido e, armado de uma mesinha e algumas cadeiras, instalava-se nos pátios de supermercados para arrecadar fundos e filiados. “O PT foi construído com esse tipo de dinheiro”, enfatiza, referindo-se à sua decepção com o triste fim de certos princípios e condutas do partido.

Em 1995, Carlini foi eleito pela primeira vez membro do Conselho Internacional de Controle de Narcóticos das Nações Unidas. Como a posição era incompatível com cargos de governo, abdicou dela para assumir a antiga Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (hoje Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA), a convite do então Ministro da Saúde Adib Jatene.

Sua gestão foi marcada por uma profunda reorganização do setor farmacêutico. Fazendo cumprir a legislação, mais de 200 laboratórios foram fechados - quer dizer, quando era possível fechá-los, pois se descobriu que boa parte deles funcionava virtualmente em terrenos baldios.

Ciente de que devia se pautar por critérios técnicos, não cedeu a pressões políticas e conquistou a antipatia de uma parte da esquerda. Depois do fatídico episódio da CPMF que motivou a saída de Jatene do ministério, manteve-se no cargo por poucos meses, deixando-o em 1997, apesar do apoio tanto da comunidade acadêmica como de setores expressivos da indústria farmacêutica. “Fui massacrado pelo ambiente de Brasília. Foi tenebroso”.

O que mais o entusiasma atualmente é a pesquisa de plantas com propriedades psicoativas; na verdade são duas linhas de pesquisa, tocadas pelo CEBRID. Numa delas, já foram feitos levantamentos etnográficos do uso tradicional destas plantas entre os índios Khraô do Tocantins e comunidades quilombola do Mato Grosso.

Carlini tem encontrado entraves na legislação e chegou a ser acusado de biopirataria. Em resposta, organizou em 2005 um simpósio sugestivamente intitulado “Plantas Medicinais no Brasil: o pesquisador brasileiro consegue estudá-las?”, em que estiveram presentes a FUNAI, lideranças indígenas e diversos ministérios e sociedades científicas.


(na foto ao lado, Carlini e Orlando Bueno, hoje do depto. de psicobiologia da Unifesp, operando uma caixa de Skinner automatizada na Santa Casa de São Paulo, década de 60.)

Na segunda linha de pesquisa são conduzidos estudos clínicos cujo objetivo é a descoberta de novos medicamentos à base de plantas. Duas patentes já foram registradas. Um dos estudos em andamento envolve voluntários idosos com déficit de memória.

Antes de nosso encontro para este perfil, ele entrevistava alguns desses voluntários e, indignado, começou assim nossa conversa: “É preciso fazer alguma coisa com urgência. É inaceitável o estado de carência e abandono do velho nesta terra”.


Esta é a versão não editada e levemente atualizada de um texto meu publicado na revista Mente&Cérebro, ed. 161, junho de 2006.

22/09/08

HOSPITAL PRÉ-HISTÓRICO


Os hospitais surgiram na Europa durante a Idade Média e eram originalmente lugares afastados das cidades, geralmente tocados por religiosos, que recebiam e cuidavam de viajantes, peregrinos, andarilhos, que chegavam até eles debilitados pela jornada, quase sempre famintos e precisando de um bom banho. Daí vem a palavra hospitalidade.

Mas o "hospital" mais antigo do mundo pode ter sido criado muito antes, mais especificamente na Idade do Bronze. As últimas escavações feitas em Stonehenge, o misterioso monumento pré-histórico no sul da Inglaterra, sugerem que aquelas pedras enormes, dispostas em círculos, eram um templo de cura. Quando? Entre 2.400 e 2.200 a. C.



As evidências encontradas nas escavações (as únicas realizadas nos últimos 50 anos) indicam que Stonehenge era o destino final de peregrinos que buscavam nas pedras azuis a cura para suas injúrias. Isso porque os restos dos que morreram ali mostram que eles tinham sinais de lesões ou doenças e que não eram habitantes da região.

Obviamente, ainda não há consenso entre os arqueologistas e outras hipóteses continuam fortes, como aquela segunda a qual Stonehenge era um imenso calendário que os homens pré-históricos construíram para se programar melhor para a mudança de estações.

Saiba mais no UOL ou na BBC (em inglês).

16/09/08

UM PLAGIADOR RENASCENTISTA


As ilustrações anatômicas produzidas durante o Renascimento são verdadeiras obras de arte. Esta é uma de minhas preferidas, não só por ser elegantemente mórbida, mas também pelas peculiaridades de seu autor, Juan Valverde Amusco (1525-1588).

Amusco foi um espanhol que estudou medicina em Roma e Pádua. A ilustração acima é do seu livro Anatomia del cuerpo humano (Roma, 1560). Do ponto de vista técnico, Amusco inovou. Foi o primeiro a usar a gravura em metal (cobre) para imprimir ilustrações anatômicas. Antes dele isso era feito em xilogravura, que não permite traços tão finos.

O problema do médico espanhol foi a falta de estilo e, pior, o plágio descarado. Ele copiou várias ilustrações de Andreas Vesalius, cujo De humani corporis fabrica, de 1543, é um dos livros mais sensacionais de todos os tempos. Tornaram-se inimigos, obviamente.

A imagem acima não é um plágio de Vesalius, em compensação tem uma "referência" a Michelângelo para lá de explícita. A face que pende da mão do modelo lembra muito a que aparece segurada por São Bartolomeu de O juízo final, da Capela Sistina (abaixo) e que, dizem, seria um auto-retrato do próprio Michelangelo.


11/09/08

FUMAR É...(ou memória brasileira em arquivos americanos)

Estive navegando pelos arquivos de imagens online da National Library of Medicine (NLM), infelizmente sem muito sucesso em relação ao tema que estava pesquisando. Lá pelas tantas, já meio cansada, resolvi fazer uma busca com a palavra "Brazil" e apareceram coisas interessantes, que com o tempo vou postando aqui. Para começar...


... uma série de cartazes de uma campanha anti-tabagismo do Ministério da Saúde feita durante o governo Sarney, com desenhos do Ziraldo.


A data indicada nos registros da NLM é 199? --mas é bem provável que seja do fim da década de 1980 (o governo Sarney foi de 1985 a 1990). Embora eu já fosse uma adolescente nessa época, não tenho nem a mais vaga lembrança destas imagens.


Nada a ver com as campanhas agressivas de hoje ou com as imagens mórbidas estampadas nos maços de cigarro. Ao contrário, os desenhos são super simpáticos e, muito provavelmente, pouco eficazes.


Seja como for, o número de fumantes no Brasil vem caindo. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), as chaminés humanas foram reduzidas em cerca de 40% nos últimos 18 anos.


É curioso achar essas coisas nos arquivos de uma instituição americana. Pena que o próprio Ministério da Saúde não tenha um acervo deste tipo, pelo menos no site eu não achei nada. Bem, o forte dos brasileiros não é a preservação da memória. Só resta agradecer aos americanos.
Thank you so much.



08/09/08

FASCINADOS PELA RADIAÇÃO


A descoberta dos raios X pelo alemão Wilhelm Röntgen em 1895. O isolamento do rádio (o elemento químico) pela francesa Marie Curie em 1902. A energia nuclear revelada pela famosa equação de Einstein de 1905. E finalmente o Projeto Manhattan na década de 1940.

Estes são apenas alguns (os mais famosos) acontecimentos que alimentaram o fascínio da população ocidental pelos raios X e pela radioatividade na primeira metade do século 20, fascínio esse que foi espelhado numa série de produtos de consumo que, obviamente, nada tinham de radioativos, mas que incorporaram esse "conceito" em suas campanhas de marketing como forma de "agregar valor" a suas marcas.

As imagens abaixo são da Health Physics Historical Instrumentation Collection, que pertence ao museu das Universidades Associadas de Oak Ridge, Tennessee (a sede do Projeto Manhattan ficava em Oak Ridge). No site do museu tem muita coisa bacana (ver mais links no fim do post), aqui vai uma minúscula amostra:



Pastilhas para dor de cabeça: este anúncio (14 cm x 34,3 cm) parece ser do tipo que se colocava em bondes ou ônibus. Um texto publicitário do produto, publicado em 1899, dizia: Pastilhas Raios X. Os resultados são melhores que as promessas (...) Elas são baratas e fáceis de tomar. Podem ser dissolvidas na língua, esfareladas ou engolidas por inteiro. Oito doses por 10 centavos. Fabricadas por The Weaver - Markel Chemical Co. Union Bridge MD. Vendidas em qualquer lugar. Pergunte por elas



Sabão: esta lata (10,2 cm de altura; 13,3 de diâmetro) foi fabricada por volta de 1910. As instruções indicam que o produto é indicado para as mãos, pratos, lavanderia, carpetes, pisos e automóveis. Feito à base de óleos vegetais e sem "produtos químicos", foi fabricado pela X-Ray Products Co. empresa de Port Huron, Michigan.


Preservativos: a latinha de camisinhas (5 cm x 4,6 cm) data provavelmente da década de 1940.
Infelizmente não se sabe mais nada sobre ela.


Lâminas de barbear: o verso do envelope dizia que a embalagem aperfeiçoada prevenia a perda do fio das lâminas, geralmente causada pelas "vibrações em trânsito". Patenteado em 1943, o produto foi comercializado pela R-Xay Blade Corporation de Newark, Nova Jersey.



Para ver mais produtos "atômicos": www.orau.org/ptp/collection/brandnames/brandnames.htm

Para ir à página principal da Health Physics Historical Instrumentation Collection: www.orau.org/ptp/museumdirectory.htm


06/09/08

Anemokol: o Viagra tosco dos anos 80


Antes da criação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em 1999, o mercado farmacêutico brasileiro era um "samba do crioulo doido". O vídeo abaixo é um exemplo dessa época de farra. Veiculada em Pernambuco na década de 1980, é uma das campanhas publicitárias mais hilárias que eu já vi, ainda que no fundo seja triste.

Não consegui muita informação sobre o Anemokol (sua composição, por exemplo), que aparentemente propunha-se ser um multivitamínico, vendido na forma de "xarope", especialmente indicado para homens por suas qualidades afrodisíacas.

O professor José Afonso Jr., do departamento de comunicação social da Universidade Federal de Pernambuco dirigiu o documentário Lixo nos canais, de 1995, em que o diretor da campanha publicitária Geraldo Lima é entrevistado. Segundo um artigo publicado na revista ProNews, Lima "expõe com franqueza a ineficiência do produto, que não trazia nenhum benefício depois de consumido. E finaliza comentando o recall da peça que, em 1986, teve 260 mil vidros consumidos, perdendo apenas para os anúncios da Coca-Cola".

Deleite-se com o vídeo, que na verdade é uma seqüência das peças. A melhor é, sem dúvida, a protagonizada por Waldick Soriano, morto na semana passada. (Pergunto-me se naquela época havia algum tipo de restrição de horário para veiculação de comercial com imagens de nudez e temática mais picante. É bem possível que não.)



05/09/08

"Ô Josué, nunca vi tamanha desgraça"

O médico, antropólogo e geógrafo recifense Josué de Castro, autor do antológico Geografia da fome (1946), faria hoje 100 anos. Filho de retirantes, ele denunciou o lastimável estado nutricional de boa parte da população brasileira, particularmente no Nordeste. “Nosso conceito de fome: as fomes individuais e coletivas. As fomes totais e parciais. As fomes específicas e as fomes ocultas.”

Traduzido para 25 línguas, Geografia da fome é uma referência mundial sobre o tema. Josué publicou muitos outros livros e influenciou gerações. Em Homens e carangueijos, ele conta no prefácio que tomou conhecimento da fome nos manguezais e alagados do Recife.


O movimento manguebeat, encabeçado pelo saudoso Chico Science, tem diversas referências ao legado deste brasileiro um tanto esquecido, pelo menos aqui no Sudeste, infelizmente. O título deste post vem da música Da lama ao caos (ao lado, foto de Chico Science e Nação Zumbi)

Josué de Castro presidiu o conselho da FAO, orgão da ONU para agricultura e alimentação, entre 1954 e 1958 e foi deputado federal por Pernambuco entre 1956 a 1962. Com o golpe militar de 1964, sua vida sofreu uma reviravolta. Teve seus direitos políticos cassados pelo AI-5 e exilou-se em Paris, onde morreu em 1973.

Veja mais em www.josuedecastro.com.br
Agradecimento: Geófagos (pela lembrança)


03/09/08

Diário de um homem desapontado




"O sofrimento não apenas isola sua vítima. Ele a joga numa ilha de
um oceano deserto, onde ela vê os homens como navios passando ao longe"



A esclerose múltipla deu origem a um dos melhores diários da literatura britânica, segundo alguns críticos. The journal of a disappointed man narra a vida do naturalista inglês Bruce Frederick Cummings (1889-1919) (foto), funcionário do Museu Britânico, que foi diagnosticado com a doença aos 26 anos, quando tentou se integrar às tropas que combatiam na Primeira Guerra Mundial.

Usando o pseudônimo W. N. P. Barbellion, o autor faz um relato que combina reflexões filosóficas, fria resignação e um estilo que remete a James Joyce e Franz Kafka, expondo com elegância e ironia a lenta devastação causada pela doença contra a qual a medicina da época podia fazer muito pouco.

O livro foi publicado em 1919, ano da morte de Cummings, com prefácio do escritor britânico H. G. Wells, um dos ícones da literatura de ficção científica, o que levou muitos leitores a pensar que se tratava de uma obra de ficção do próprio Wells assinada com um pseudônimo.

As primeiras edições foram um sucesso de vendas na Inglaterra e nos Estados Unidos. O livro acabou caindo no esquecimento do público depois da Segunda Guerra, mas ainda é editado no formato de bolso em países de língua inglesa.

Muitas associações de apoio aos pacientes com esclerose múltipla também o reeditaram e o traduziram, como forma de incentivar uma melhor compreensão da dimensão psicológica da doença, tanto por parte dos portadores como das pessoas que convivem com eles.

O original está disponível na íntegra, na forma de blog, no endereço: www.pseudopodium.org/barbellionblog. A obra nunca foi editada em português.

Este texto faz parte de uma reportagem minha sobre esclerose múltipla, publicada na edição de agosto de 2008 na revista Mente&Cérebro.

 
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