29/11/08

"Era uma vez um cérebro", próximo sábado, na Lapa (SP)




No próximo sábado, dia 6 de dezembro, às 15h, vou dar uma palestra sobre história das neurociências na Biblioteca de Ciências Mário Schenberg, no bairro da Lapa, em São Paulo.

A idéia é fazer um passeio histórico que mostre a evolução do conhecimento sobre o cérebro, da trepanação até as técnicas de neuroimageamento, passando pelas principais descobertas feitas nos últimos séculos (ver resumo, abaixo).

Para quem está em Sampa e ainda não ouviu falar nessa biblioteca, lhes conto: a Biblioteca Mário Schenberg foi reinaugurada em outubro passado, como parte de um projeto de reestruturação das bibliotecas municipais, que agora são temáticas. Ganhou um novo acervo especializado em ciências, computadores com internet e, o que é ainda mais importante, uma equipe de curadores competente e entusiasmada. Além disso, está estrategicamente localizada próximo à Estação Ciência. Visite o site: www.bibliotecadeciencias.sp.gov.br e conheça a programação de palestras para dezembro e janeiro.

Quero agradecer às curadoras Olga Sato e Marianne K. Biben Frederick pelo convite. Abaixo, um resumo da palestra e o endereço.


Era uma vez um cérebro

Uma massa cinzenta, que pesa pouco mais de 1kg e mais parece o miolo de uma noz gigante, é responsável por tudo o que sentimos, pensamos e fazemos. O cérebro é o órgão mais fascinante do corpo humano e gosta de descobrir, de aprender e de se emocionar. O cérebro gosta inclusive de entender o que é o próprio cérebro, e isso já vem de muito tempo. As primeiras "cirurgias" cerebrais, por exemplo, foram feitas numa época em que os homens ainda moravam em cavernas. Ao longo dos tempos o ser humano criou um grande número de artimanhas, experimentos e teorias para entender o que acontece de verdade dentro de suas cabeças. Entre erros e acertos, chegamos ao século 21 sabendo muito sobre a estrutura e o funcionamento de nossa máquina pensante.

O objetivo desta palestra é contar algumas histórias que ajudaram a construir o que hoje chamamos Neurociências. Muitas destas histórias são inacreditáveis, algumas são engraçadas e há ainda outras totalmente equivocadas, que mostram que a ciência não está livre de preconceitos, mas que é possível superá-los, porque cérebros inteligentes sabem reconhecer seus erros. Mas apesar de já sabermos tantas coisas, ainda há muito por descobrir sobre essa complexa teia de neurônios que governa nossas vidas. Pode parecer pretensioso pensar que um dia o cérebro vai conseguir desvendar todos os mistérios de si próprio, mas que ninguém duvide, pois nesse momento há milhares de cérebros no mundo todo trabalhando duro para alcançar este objetivo.


Quando e onde:
Sábado, 06/12, às 15h
Biblioteca de Ciências Mário Schenberg.
R. Catão, 611 - Lapa
São Paulo/SP CEP: 05049-000

http://www.bibliotecadeciencias.sp.gov.br/.

27/11/08

História da medicina gaúcha em grande estilo


Descobri ontem o site do Museu de História da Medicina do Rio Grande Sul (Muhm), de longe o melhor do gênero no Brasil. De forma geral, os sites dos museus brasileiros de história da medicina são burocráticos. Resumem-se basicamente a algumas páginas institucionais, uma brevíssima descrição dos acervos, da equipe, endereço, telefone e horários de visitação. Quando muito a divulgação de alguma exposição.

Mas o site do Muhm vai muito além. Mostra realmente uma preocupação de ter uma interface amigável com o público, o que inclui quem não está em Porto Alegre, onde está sediado. O visitante virtual tem acesso a fotos de peças do acervo museológico, documentos raros digitalizados, fotos, vídeos e arquivos de áudio sobre personagens importantes da medicina gaúcha e um bom material sobre as exposições em cartaz ou já realizadas.

O Muhm tem pouco mais de um ano de existência. E, ao contrário da maioria dos seus congêneres, não está ligado a nenhuma universidade. Pertence ao Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), fundado em 1931, cuja história pode ser conferida numa exposição virtual no próprio site.

Aqui um belo vídeo institucional do Muhm (3:50).




E aqui um outro, sobre parteiras gaúchas, que integra a exposição Mulheres e Práticas da Saúde (17:55). Muito bonito.

22/11/08

Exposição virtual sobre história da embriologia



Mulher trabalha com modelos de embrião no
Museu Alemão de Higiene, em Dresden, antes de 1945



Making Visible Embryos é o título da exposição virtual recém-inaugurada pela Universidade de Cambridge, Reino Unido. Um passeio fascinante e imperdível. Segue o resuminho:

Images of human embryos are everywhere. We see them in newspapers, clinics, classrooms, laboratories, family albums and on the internet. Debates about abortion, assisted conception, cloning and Darwinism have sometimes made these images hugely controversial, but they are also routine. We tend to take them for granted today. Yet 250 years ago human development was still nowhere to be seen.

Developing embryos were first drawn in the eighteenth-century Enlightenment. Modern medicine and biology exploited technical innovations as pictures and models communicated new attitudes to childbirth, evolution and reproduction. In the twentieth century they became the dominant representations of pregnancy and prominent symbols of hope and fear. Wherever we stand in today’s debates, it should enrich and may challenge our understandings to explore how these icons have been made. (www.hps.cam.ac.uk/visibleembryos)
(Via Biomedicine on Display)

Alois Alzheimer: entre pacientes, lâminas e microscópios



August D., que sempre fora uma mulher saudável, educada e um pouco tímida, foi internada no Hospital Municipal de Lunáticos e Epiléticos de Frankfurt no dia 25 de novembro de 1901, aos 51 anos. Entrevistado pelo médico que a atendeu, seu marido contou que os problemas haviam começado seis meses antes com uma súbita e escandalosa crise de ciúme seguida de perda progressiva da memória. Aos poucos August foi se tornando ansiosa e hostil. Por se tratar de um caso incomum, o jovem médico avisou o diretor do hospital. Alois Alzheimer (1864-1915) visitou a paciente no dia seguinte.

August D., a primeira paciente


Na época a Alemanha era um lugar privilegiado para quem quisesse se dedicar ao estudo das doenças mentais. Não por acaso, a trajetória de Alzheimer foi marcada pela convivência com alguns notáveis, entre eles o patologista e anatomista que cunhou o termo neurônio Heinrich Wilhelm Gottfried Waldeyer-Hartz (1836-1921), seu professor na Universidade de Berlim. Em Würzburg, onde terminou a faculdade de medicina em 1888, Alzheimer defendeu a tese intitulada “Sobre as glândulas ceruminosas do ouvido” sob orientação de Rudolf Albert von Kolliker (1817-1905), lembrado hoje por suas grandes contribuições para a histologia, a ciência que estuda tecidos e células. A paixão por lâminas e microscópios acompanharia Alzheimer por toda a vida.

Assim que se formou, foi trabalhar em Frankfurt como médico assistente no Hospital de Lunáticos e Epiléticos, então dirigido por Emil Sioli (1852-1922), entusiasta das idéias de Philippe Pinel (1745-1826) e de Jean-Marie Charcot (1825-1893). Ali encontrou o já famoso neuropatologista Franz Nissl (1860-1919), criador de uma técnica, usada até hoje, de análise histológica de neurônios: o método de Nissl. Não tardou para que Sioli, Alzheimer e Nissl transformassem a instituição em um sanatório de prestígio e substituíssem drogas e medidas coercitivas por ações humanizadas, como banhos terapêuticos e psicoterapia. Além disso, o trio deu início a pesquisas científicas de alto nível baseadas na análise do cérebro de pacientes que morriam no sanatório. Com elas, passaram a relacionar sintomas a alterações anatomopatológicas.

Cuidadoso e detalhista, Alzheimer ficou conhecido pela rara habilidade com que descrevia os achados microscópicos. Dedicava as manhãs ao atendimento aos doentes e passava as tardes no laboratório analisando lâminas de tecido cerebral obtido nas necropsias. A parceria com Nissl, mais criativo e inquieto, foi completada pela disciplina e alto poder dedutivo de Alzheimer. Juntos realizaram um extenso mapeamento das doenças do sistema nervoso conhecidas na época, trabalho que deu origem ao tratado de seis volumes intitulado Estudos Histológicos e Histopatológicos do Córtex Cerebral, publicados entre 1906 e 1918. Além de contribuir decisivamente para a neurobiologia do envelhecimento, Alzheimer se dedicou ao estudo da epilepsia, do alcoolismo e da arteriosclerose cerebral e à psiquiatria forense.


Alois Alzheimer, cuidadoso e detalhista


Alzheimer acompanhou de perto o caso de August D. até 1903, quando se mudou para Heidelberg a convite de Emil Kraepelin (1856-1926), considerado um dos fundadores da psiquiatria moderna. Poucos meses depois, ambos se transferiram para a Clínica Psiquiátrica Real, em Munique, hoje Instituto Max-Planck de Psiquiatria. Com a morte da paciente em abril de 1906, Sioli enviou cérebro e prontuário para que Alzheimer os examinasse. O caso foi apresentado no 37º Encontro de Psiquiatras do Sudoeste da Alemanha em novembro do mesmo ano, em Tübingen. A platéia recebeu os achados com frieza e cautela.

As lâminas do cérebro de August D. foram reanalisadas por alguns pesquisadores nos anos seguintes, que confirmaram o acúmulo de uma substância incomum no córtex cerebral − hoje conhecida como proteína betaamilóide. O caso de um segundo paciente, Johann F., aparentemente portador da mesma anomalia, foi descrito por Alzheimer em 1910. Convencido de que realmente estavam diante de uma nova patologia, no mesmo ano Kraepelin introduziu o termo doença de Alzheimer na oitava edição do seu Tratado de Psiquiatria.

Houve, entretanto, quem o criticasse pela pressa com que criara o novo epônimo − o que era de certa forma plausível. O homem que identificou a esquizofrenia e a psicose maníaco-depressiva foi também um político hábil e ferrenho opositor às idéias de Sigmund Freud (1856-1939), que floresciam não muito longe dali, em Viena. É provável que além das motivações científicas, Kraepelin desejasse com isso promover seu laboratório e, para se contrapor à teoria psicanalítica, reafirmar a importância dos mecanismos biológicos subjacentes a alguns quadros psiquiátricos.

Em 1912, Alzheimer aceitou o convite do rei da Prússia Guilherme II para dirigir a Clínica de Psiquiatria e Neurologia da Universidade Silesiana Friedrich-Wilhelm, em Wroclaw (hoje Breslau, Polônia). Na viagem de trem contraiu uma grave amidalite, que evoluiu para artrite reumatóide e problemas cardíacos e renais. Nunca mais recuperou a saúde e passou os anos seguintes na cama, até morrer em 1915, aos 51 anos.


Emil Kraepelin, pioneiro da psiquiatria e inimigo de Freud


As duas guerras mundiais, das quais a Alemanha saiu derrotada, contribuíram para que a descoberta de Alzheimer passasse despercebida até a década de 60, quando a maior expectativa de vida da população aumentou o número de casos da doença. Houve controvérsia entre médicos e pesquisadores, pois para muitos deles Alzheimer cometera equívocos, e as lesões descritas no início do século XX na verdade corresponderiam a outras doenças já conhecidas, como a demência vascular.

A polêmica só foi definitivamente resolvida na década de 90 graças ao notável trabalho investigativo do neuropatologista Manuel Graeber, do Instituto Max-Planck de Neurobiologia. Entre 1992 e 1997 ele encontrou as preparações histológicas do cérebro de August D. e de Johann F., até então esquecidas nos porões da Universidade de Munique. Ao todo são mais de 400 lâminas em ótimo estado de conservação, além de outros documentos que descrevem a história clínica desses pacientes. A doença de Alzheimer é hoje a forma mais comum de demência e um dos distúrbios neurológicos que mais concentram esforços de pesquisa, além da preocupação de profissionais da saúde, das famílias e da imprensa.

Esse texto foi publicado na revista Mente&Cérebro, edição 164, setembro de 2006.

18/11/08

Filmes científicos raros da Wellcome Collection agora para download


A Wellcome Collection colocou na internet seu catálogo de filmes digitalizados; e, o que é melhor, já concluiu o upload de 61 obras, que qualquer um pode baixar para fins não comerciais. Há muitas preciosidades, como esta aí embaixo: um filme russo (parte 1 de 6), de 1925, sobre reflexo condicionado, em que o próprio Ivan Pavlov dá uma canja (o filme é mudo, as legendas estão em inglês, mas é possível ver que as ilustrações ainda estão em russo).

video

Clique aqui para ir ao catálogo.

Para assistir aos filmes é preciso baixá-los (na íntegra ou em partes), o que exige paciência porque os arquivos são SUPER pesados. Enfim, nem tudo é perfeito (e DVDs virgens já estão na minha de lista compras de Natal na 25 de março).

O filme mais antigo do catálago, Bacillus typhosus, é da década de 1910 e acredita-se que tenha sido feito no Bombay Plague Laboratory (Índia), hoje Instituto Haffkine. O mais novo é de 1988: African sleeping sickness, filme-piloto de uma série da Wellcome Trust sobre a história da pesquisa em tripanossomíase.

Se quiser ver outro filme, veja este post do blog da Wellcome Library, que chegou ao meu conhecimento via Morbid Anatomy.

13/11/08

História da saúde paulista: nasce a RedeHiss




A história da saúde e da medicina paulista está em processo de organização. O pontapé inicial foi dado no I Encontro Paulista Memória Saúde e Sociedade, organizado pela USP, Unifesp, Instituto de Saúde e Instituto Butantan (cartaz acima). O objetivo dos pesquisadores, em sua maioria historiadores e museólogos, é estreitar laços e consolidar parcerias entre os grupos que até hoje vêm trabalhando de forma isolada, o que enfraquece o campo de pesquisa como um todo e coloca em risco o patrimônio cultural, arquitetônico, documental e museológico da saúde do Estado de São Paulo.

É um pouco irônico que a unidade mais rica da federação, com universidades e instituições de pesquisa de imenso prestígio, precise de uma iniciativa deste tipo. Temos de lembrar, porém, que a história da saúde e da medicina não é um campo de pesquisa muito tradicional nas terras paulistas, diferentemente do Rio de Janeiro.

O Rio leva uma vantagem que vai muito além do fato de ter sido cenário, como capital federal, de importantes acontecimentos nessa área. Como explicou o médico sanitarista Nelson Ibañez, da Santa Casa, o Estado de São Paulo carece de uma instituição-mãe, como a Fundação Oswaldo Cruz, que com sua força política consegue reunir e coordenar pesquisadores e mobilizar recursos públicos para a pesquisa e a preservação dos acervos, bem como a acesso público a eles.

Em São Paulo, a situação é dispersa. Há pequenos grupos de pesquisadores na USP, na Unifesp, no Butantan, no Instituto de Saúde etc, sem falar das instituições do interior paulista , em Campinas e Ribeirão Preto, por exemplo. A conseqüência mais terrível dessa desarticulação é, sem dúvida, a manutenção dos acervos, muitos deles ainda não catalogados e muito menos pesquisados. O trabalho acadêmico nessa área ainda é, portanto, enorme. Muito da história da saúde e da medicina paulista ainda está para ser contada.

Em dezembro de 2005, um incêndio na biblioteca do Complexo Hospitalar do Juquery, em Franco da Rocha, transformou em cinzas milhares de documentos de valor inestimável. Neste momento, muitos outros arquivos correm perigo no bairro do Bom Retiro, na capital. No futuro Centro de Memória da Saúde de São Paulo, que deveria ter saído do papel há dois anos, parte do forro veio abaixo recentemente e a maioria dos documentos ainda está encaixotada, esperando que os fungos e as traças façam seu trabalho. Um escândalo.

É por essas e outras que esse pessoal criou a RedeHiss - Rede Interdisciplinar de Pesquisa em História da Medicina e da Saúde de São Paulo. A primeira idéia é usar a tecnologia da informação para agregar pessoas; no ano que vem deve haver encontros menores para discutir estratégias.

O que eu achei muito bacana é que eles são muito abertos à participação de todos que estejam dispostos a colaborar. Conversando sobre minha paixão pelo tema com o André Mota, do Museu Histórico da FMUSP e um dos organizadores do eventos, ele logo me disse: "Entra na rede". Sugeri a ele que estudasse a possibilidade de participação de voluntários, simpatizantes da causa. Um dos objetivos formais da rede é justamente "divulgar e difundir o conhecimento sobre história da saúde e da medicina para o público geral". Espero realmente poder contribuir, quem sabe por meio deste blog, de alguma maneira. O email é redehiss@museu.fm.usp.br, se alguém se interessar.

11/11/08

Sobre heranças, sonhos e linces



Miguel Nicolelis e Cesar Timo-Iaria: linhagem científica


Eu acredito muito em herança. Não não me refiro a genética ou testamentos, mas à herança intelectual e científica. Falo da transmissão do conhecimento, e da postura diante dele, ao longo de gerações de indivíduos que não compartilham material genético. Talvez seja uma forma de transmissão psíquica de que falam os psicólogos, mas que ocorre por meio de outros vínculos que não os familiares. De certa forma, os cientistas também se agrupam em "famílias", sendo possível desenhar uma árvore genealógica científica, por onde são transmitidos certos ideais.

Não é coincidência, por exemplo, que Elisaldo Carlini, pai da psicofarmacologia no Brasil, seja cria direta de José Ribeiro do Valle (1908-2000) e de José Leal do Prado (1918-1987), dois pesquisadores que ousaram, nos anos 40, fazer ciência básica na antiga Escola Paulista de Medicina (EPM), hoje Unifesp, até então totalmente voltada à prática clínica e atualmente um dos maiores centros de produção de conhecimento na área de saúde no País.

Tampouco é casualidade que Ivan Izquierdo, argentino radicado no Brasil há mais três décadas e referência mundial no estudo dos mecanismos moleculares da memória, tenha se iniciado na carreira acadêmica, ainda em Buenos Aires, sob orientação de Bernado Houssay (1887-1971) (foto ao lado), prêmio Nobel de medicina e fisiologia em 1947.

Com Miguel Nicolelis, a história se repete. Nosso mais forte candidato ao Nobel nos próximos anos, pela pesquisa com interfaces cérebro-máquina, e idealizador de um audacioso projeto científico de responsabilidade social, é descendente, em primeiro grau, de Cesar Timo-Iaria (1925-2005), considerado o pai das neurociências no Brasil.


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Médico formado pela EPM, Timo-Iaria fez o doutorado em fisiologia na USP de Ribeirão Preto, sob orientação do argentino Miguel Rolando Covian (foto ao lado) -- que assim como Ivan Izquierdo, também é cria de Bernando Houssay. Nos anos 50, foi admitido como professor assistente na Faculdade de Medicina da USP de São Paulo (FMUSP) e depois partiu para o pós-doutorado na Universidade do Estado de Nova York para estudar neurofisiologia. "Foi convidado para ficar nos EUA depois que concluiu o pós-doutorado, mas voltou porque achava necessário criar a neurociência no Brasil", disse Nicolelis à Folha de São Paulo em 2005, por ocasião da morte do professor.

Timo-Iaria fez carreira na FMUSP e tornou-se referência nacional em fisiologia do sono. Foi o primeiro a descrever o sono REM (a fase dos sonhos) em roedores. Era um homem de grande erudição e crítico severo da extrema especialização dos cientistas.


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Conheci César Timo-Iaria, de longe, na década de 90. Eu era muito nova, ainda fazia iniciação científica; ele já estava aposentado, mas ainda estava na ativa. Foi em algum congresso do qual não consigo me lembrar. Recordo-me com muita clareza, porém, do seu ar austero, do tique que tinha numa das sobrancelhas, e do respeito com que os outros pesquisadores o tratavam.

Lembro-me também de uma discordância que havia entre ele e o meu então orientador, Luiz Menna-Barreto. Este, também especialista em sono, achava um absurdo Timo-Iaria dizer e repetir que os ratos sonhavam. Segundo Menna, o máximo que se podia dizer era que os roedores tinham atividade onírica, porque nenhum deles podia contar sobre seus sonhos. Eu, claro, concordava com meu orientador, mas hoje isso me parece uma questão de pouca importância. Desconfio, embora não pudesse perceber na época, que nem eles levavam a discussão muito a sério.

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Conheço um pesquisador da USP, também discípulo de Timo-Iaria e "irmão" mais novo de Nicolelis. Em uma conversa que tivemos no ano passado, logo depois de o Instituto Internacional de Neurociências de Natal ser inaugurado, ele lembrou do dia, há muitos anos, em que viu o colega extremamente cabisbaixo entrando na sala do chefe. Já doutor, estava desanimado com a falta de perspectivas de trabalho no Brasil. O que teria ouvido do mestre? Obviamente só ele poderia dizer, mas não é muito difícil imaginar o tom da conversa, a julgar pelo discurso de Timo-Iaria na abertura da Reunião Anual da Fesbe em 2002:

Acercando-me do fim de minha vida, não posso deixar de apelar a todos os aqui presentes, bem mais jovens do que eu, para que almejem tornar-se "linces", como eram considerados os membros da primeira academia do mundo. Que enxerguem muito longe, abrangendo um ângulo acadêmico de saber muito amplo e passando essa atitude para seus alunos.

Precisamos deixar de formar formiguinhas, treinadas para carregar pedacinhos de folhas de um lugar a outro quase que cegamente, e voltar a formar linces. E, talvez o que seja ainda pior, formiguinhas que redescubram freqüentemente o que já foi descoberto antes, por não mais lerem artigos que tenham mais de 5 anos de existência. (...)

Por tudo o que acabo de dizer, permitam-me pedir-lhes mais uma vez que tentem quebrar a medíocre tendência destes nossos tempos e tornem-se linces, linces de verdade, não apenas meras formiguinhas. Não é necessário pesquisar em diversos campos da ciência, mas é imperativo que se leia sobre todo o conhecimento humano.

Alguém duvida que Miguel Nicolelis se transformou num lince?


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Quem assistiu ao programa Roda Viva ontem, ouviu Nicolelis repetir várias vezes a palavra "sonho". O projeto de Natal é um dos grandes sonhos do pesquisador e que está virando realidade, ainda que os resultados devam demorar alguns anos, como sempre quando se investe em educação. Esse sonho é uma herança de Timo-Iaria (e possivelmente de Covian, de Houssay etc), que disse na mesma reunião de 2002:
Todos nós temos sonhos impossíveis. Eu também os tenho, apesar de minha pesada racionalidade. Um de meus sonhos irrealizáveis é criar uma escola para jovens geniais, que os ensine desde os 7 anos até a idade pré-universitária um amplíssimo leque de disciplinas que os preparem de fato para uma liderança incontestável, como a que norteou a criação da famosa École Normale de Paris, onde desde fins do século XVIII se formam os grandes líderes políticos franceses.

Os alunos dessa escola de meus sonhos aprenderiam meia dúzia de idiomas, matemática superior, física relativística e quântica, literatura clássica, história antiga e medieval, economia, música e muitas outras disciplinas, que os distinguiria, e muito, dos alunos que hoje completam o ciclo médio. Isso os prepararia claramente para cursos universitários de altísismo nível. E como seriam esses cursos? Nesse meu sonho todos os alunos teriam um curso básico poderoso de física, que é a ciência fundamental, e depois teriam cursos ainda básicos, abrindo-se em cursos progressivamente mais e mais especializados, porém, alicerçados nas ciências mais básicas, em especial a física.

Sei que esse é um sonho, cuja realização é por ora impossível. Quiçá dentro de alguns milhares de anos a humanidade crie juizo e o concretize. Se isso não ocorrer, então minha última esperança é que uma das próximas espécies o faça. Pena que não estarei por aqui quando isso ocorrer.

Cesar Timo-Iaria deve estar se revirando no túmulo. De alegria.


Veja aqui o discurso completo de Cesar Timo-Iaria na Reunião da Fesbe em 2002. Vale a pena.

10/11/08

I Encontro Paulista "Memória, saúde e sociedade"



O evento acontece nesta quarta (12) e quinta (13) em São Paulo e é organizado por pesquisadores de história da medicina da USP e da Unifesp. No primeiro dia, o encontro será na Faculdade de Medicina da USP (Dr. Arnaldo, 455) e no segundo, na antiga Escola Paulista de Medicina (Botucatu, 862).

Pelo que entendi, eles vão lançar a RedeHiss (Rede Interdisciplinar de Pesquisa em História da Saúde em São Paulo). Estou curiosa para saber o que é isso. O público-alvo são pesquisadores, professores, estudantes de saúde, história e áreas afins. Vou dar uma passada lá na quarta de manhã para ver do que se trata. Depois eu conto.

Veja a programação aqui.

09/11/08

O corpo-máquina de Fritz Kahn


Médico, escritor e ilustrador. A maior parte da obra de Fritz Kahn (1888-1968) foi produzida nas primeiras décadas do século 20, época de enorme desenvolvimento industrial da Alemanha, antes da ascensão de Hitler em 1933.

Marco na história da iconografia médica, suas ilustrações mostram o corpo humano como uma fábrica moderna, eficiente, tecnológica (abaixo). Entre seus livros de divulgação científica, destacam-se A nossa vida sexual, O corpo humano e O átomo, editados no Brasil entre os anos 40 e 80 (não conheço nenhum deles, mas achei vários na Estante Virtual)

O que mais me surpreende é não encontrar nada na internet sobre sua biografia (o que o nazismo teria feito dele?). Ele não aparece na Wikipédia, nem em inglês, nem em alemão. Um mistério. Se alguém souber algo a respeito da vida Fritz Kahn, por favor deixe um comentário.



















04/11/08

Pequena pausa

Aos escassos, mas aparentemente fiéis, visitantes desse blog, aviso que não desisti dele. É só uma semana em que falta tempo para escrever com calma; volto na próxima, com outras histórias.
 
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