26/12/08

O câncer, segundo Harold Pinter (1930-2008)


"Células cancerosas são aquelas que esqueceram de morrer", escreveu o dramaturgo britânico, morto no último 24 de dezembro, no jornal The Guardian em 2002.

Leia aqui o poema Cancer cells na íntegra, em inglês.

20/12/08

Férias


Este blog entra em recesso e retorna na segunda semana de janeiro. Boas festas!

Lição de anatomia: uma paródia graciosa




O Morbid Anatomy publicou outro dia essa adorável tela cujo título é The Anatomy Lesson: Professor Cupid and his Young Pupils, de 1918 e artista desconhecido, que faz parte deste site. É uma versão infantil do famoso quadro de Rembrandt (abaixo). Note que o pequeno dr. Cupido (que me lembra Harry Potter) segura um flecha, com a qual aponta para o coração da vítima -- uma menina, já com seios --, para a curiosidade dos seus pupilos alados (pelo menos um deles, que nos mira de perfil, tem um olharzinho malicioso).


The Anatomy Lesson of Dr. Nicolaes Tulp, de 1632. É uma obra linda, mas um pouco desgastada pela falta de criatividade de algumas editoras: eu mesma tenho três livros e uma revista em que ela é capa.

16/12/08

Arquivos da Veja: obesidade



A revista Veja acaba de abrir seus arquivos para consulta pública na internet, de graça. São 40 anos de revista. A última é a da semana passada, então suponho que deva ser sempre assim daqui para frente. O sistema de navegação é bom, permite fazer buscas, salvar páginas favoritas e deixar comentários no texto. Ah, e não precisa se cadastrar. O endereço: acervoveja.digitalpages.com.br.

Como não podia ser diferente, já comecei a pesquisar as matérias sobre saúde e medicina. A primeira que registro aqui é sobre obesidade, da edição número 5, de 1968. Era um tempo em que não existia o politicamente correto e se podia escrever tranqüilamente que as pessoas eram "gordas".


Desconfio que faltou a palavra "não" na primeira frase

O texto traz uma curiosa classificação dos "tipos de gordo": o andróide, o ginóide e o pletórico e suas respectivas características (nenhum médico entrevistado, aliás, não há fonte alguma). O andróide teria um apetite insaciável e seria mais predisposto ao diabetes. O ginóide "não gosta de muita atividade e tem problemas principalmente com o fígado e o pâncreas".



Já o pletórico, o "gordo por inteiro", sempre com problemas de pressão alta e elevada taxa de gorduras no sangue, sofreria de um entorpecimento intelectual que poderia prejudicar sua vida social. É engraçado. Bem, ao que tudo indica estes conceitos estão ultrapassados. Não temos mais três tipos de gordos, mas uma legião de pessoas obesas ou acima do peso.

ATUALIZAÇÃO (29.01.09): Um leitor, que é médico, gentilmente corrige o meu último parágrafo e acrescenta algumas informações:

"Sobre os diferentes tipos de obesidade, é uma descrição que era comum em todos os livros de medicine dos anos 1970-80, antes da "invenção" da síndrome metabólica. Aliás, continua. A obesidade dita andróide (barriga) é a mais comum no homem e é ligada a hipertensão arterial e diabetes. A obesidade pletórica (generalizada) não será tão perigosa, apesar de provocar problemas respiratórios e articulares (por causa do peso).

"É verdade que a classificação das obesidades não tem muita aplicação prática. A tendência da mulher é a obesidade ginóide e do homem a obesidade andróide, a terceira (pletórica) sendo uma obesidade que pode se chamar de generalizada, com depósitos de gordura em todos os lugares, do pescoçoo até os dedos do pé. A obesidade ginóide (do quadril) é quase exclusivamente feminina e representada pela dita celulite, mas, apesar de ser um pesadelo para a maioria das mulheres, não é tão perigosa quanto a obesidade abdominal, que é comum no homem, mas que agora é também comum na mulher."

15/12/08

Cortando a própria carne


Graças ao The Sterile Eye acabo de conhecer a lista das dez mais incríveis auto-cirurgias e reproduzo três delas abaixo. As demais podem ser vistas aqui (em inglês).




O senhor aqui em cima é o cirurgião americano Evan O’Neill Kane (1862 - 1933), que queria provar que não era necessário usar anestesia geral para "pequenos procedimentos", como a retirada do apêndice, que ele realizou em si mesmo com a ajuda de um espelho e outros quatro médicos. Anos depois ele operou sua hérnia inguinal (foto), o que foi bem mais delicado devido à proximidade com a artéria femural; mesmo assim a cirurgia não durou mais de duas horas e foi um sucesso.



Aos 27 anos, o médico russo Leonid Rogozov (1937 - ) trabalhava numa base na Antártida e foi surpreendido por uma crise de apendicite. Ajudado por um motorista, alguns cientistas (nenhum médico) e anestesia local, ele retirou o próprio apêndice. Acabou desmaiando no meio da cirurgia, mas se recuperou e concluiu o procedimento em menos de duas horas. Voltou a trabalhar depois de 15 dias.



Ines Ramírez (1960 - ) vivia num vilarejo rural do México, com cerca de 500 habitantes e um telefone. Grávida aos 40 anos e depois de mais de 12 horas de trabalho de parto, ela decidiu abrir a própria barriga para não perder o bebê da mesma forma que havia perdido o último. Sob efeito do álcool (ingerido), pegou uma faca de 15 cm e começou a "cirurgia". Conseguiu retirar a criança depois de uma hora, cortou o cordão umbilical com uma tesoura e desmaiou. Horas depois estava num hospital sendo operada para cuidar dos ferimentos que causara no intestino e fechar o corte. Mãe e bebê se recuperaram totalmente.

13/12/08

Breve história da medicina



(via Flickr)


- Eu tenho dor de ouvido!

2000 a.C.: - Aqui, coma esta raiz.
1000 d.C.: - Esta raiz é pagã, reze esta prece.
1850: - Esta prece é superstição, beba esta poção*.
1940: - Esta poção é óleo de cobra, engula este comprimido.
1985: - Este comprimido é ineficaz, tome este antibiótico**.
2000: - Este antibiótico é artificial..., aqui, coma esta raiz.


* Em vez da beber a poção ficaria melhor fazer uma sangria.
**Antibiótico só em 1985? Um pouco tarde hein.

11/12/08

Ajude a salvar a memória da medicina canadense



Não é só em países em desenvolvimento que se cometem atentados ao patrimônio histórico. Veja só o que está acontecendo no Canadá.

O Hospital Mental de Weyburn, uma pequena cidade na província de Saskatchewan, foi seguramente o mais importante hospital psiquiátrico daquele país, uma espécie de Juquery da América do Norte. E está prestes a ser demolido.

Fundado em 1921, tinha capacidade para cerca de três mil pacientes. Suas atividades foram encerradas em 2005 e desde então o prédio está abandonado. Foi lá que o psiquiatra Humphrey Osmond cunhou o termo "psicodélico" e onde foram feitas as primeiras experiências com LSD no tratamento da esquizofrenia. Parte importante da história mundial da saúde mental aconteceu ali.

Organizações privadas já fizeram propostas para restaurar o complexo, que foram rejeitadas pelo poder municipal, interessado em vender a área para a construção de condomínios residenciais. A demolição deve começar logo, pois as cercas já foram derrubadas, só falta as máquinas chegarem.

Enquanto isso, a comunidade local e alguns pesquisadores canadenses, revoltados com a decisão, estão coletando assinaturas para parar o processo e encontrar uma solução mais razoável, e que serão enviadas para as autoridades locais ligadas ao patrimônio histórico.

Para colaborar, basta assinar o abaixo-assinado online aqui www.PetitionOnline.com/savewmh/petition.html.

10/12/08

Henri Laborit, o tédio e o turismo




Henri Laborit (1914-1995) é conhecido por ter descoberto, em 1954, que a clorpromazina, um remédio até então usado para tratar de enjôos a artrite reumatóide, era capaz de reduzir significativamente os surtos psicóticos de pacientes esquizofrênicos. Na época, as únicas opções disponíveis eram o eletrochoque e a lobotomia. Assim ele inaugurou a psicofarmacologia.

Esse pesquisador nascido em Hanói, Vietnã, e radicado em Paris não caiu nas graças de seus colegas cientistas, principalmente na França. Não gostava de burocracias, hierarquias e com o dinheiro que ganhou com a clorpromazina montou seu próprio instituto de pesquisa, publicava na sua própria revista e ficou meio isolado.

Laborit escreveu muito, muitos deles de divulgação científica, em que não se limitava ao nível das moléculas que conhecia tão bem. Segundo ele, para entender qualquer fenômeno biológico é preciso investigar todos os "níveis de organização" da matéria viva. Foi um inimigo do reducionismo e um pioneiro da interdisciplinariedade.

Suas idéias foram registradas no filme Meu tio na América, de 1980, do diretor Alan Resnais, um misto de ficção e documentário em que Laborit aparece para explicar suas teorias sobre o comportamento humano. (Há fragmentos do filme no You Tube, em espanhol para aqueles que como eu ignoram a língua de Voltaire.)

Alguns de seus livros foram traduzidos no Brasil, há tempos estão fora de catálogo, mas podem ser encontrados em sebos. O que tenho em mãos nesse momento é A pomba assassinada, publicado na França em 1983 e aqui, dez anos depois, pela Pontes Editora -- um livro sobre a violência e claramente escrito sob a tensão da Guerra Fria.

Reproduzo aqui os trechos que mais me impressionaram até agora, num momento em que não vejo a hora de encerrar os compromissos e fazer as malas. Sempre desconfiei que, pelo menos para mim, viajar é um vício. Agora estou certa disso.

(...) o lazer não se opõe ao trabalho, mas ao tédio. Ele não se torna verdadeiramente necessário senão a partir do momento em que o trabalho se torna tedioso (...) as razões que tornam o trabalho tedioso para a maioria dos homens contemporâneos: fragmentação que lhe faz perder seu significado de conjunto, ausência de imaginação e automatização das operações, dependência hierárquica no quadro de sua realização, encarceramento no interior de uma classe social ou profissional tanto durante o trabalho quanto durante o repouso, impossibilidade de trocas de informações outras que as profissionais. O tédio é resultado do desaparecimento progressivo das outras motivações que não sejam as salariais. (...)

O turismo nos aparece então como o equivalente das drogas psicotrópicas cujo emprego permite atenuar as neuroses, multiplicadas pela vida urbana nas sociedades industriais (...) O contato entre culturas e comportamentos diferentes, um melhor conhecimento do outro a partir do momento em que este encontro não é organizado, programado no espaço e no tempo, "administrado" para dizer tudo, "burocratizado" para se fazer compreender, é um meio eficaz para diminuir a agressividade, a arrogância, a vaidade pessoal e de seu grupo étnico, um meio de planetizar a espécie. Ver e entender o outro já é diminuir a angústia em sua manifestação direta e orientada, é, conseqüentemente, diminuir a agressividade em relação ao outro.

"A pomba assassinada", Henri Laborit (Editora Pontes, 1993, p . 131-2)

05/12/08

OBITUÁRIO: Henry Gustav Molaison (1926-2008)



Morreu na última terça-feira, aos 82 anos, o paciente que mais contribuiu para o estudo da memória. Conhecido há 55 anos como H.M., só hoje seu nome foi revelado.

Aos nove anos, Henry Gustav Molaison sofreu um acidente de bicicleta que resultou numa forma gravíssima de epilepsia, para a qual nenhum tratamento surtia efeito. Atormentado por convulsões, ele passou por uma cirurgia oito anos mais tarde.

Na década de 50, qualquer intervenção cirúrgica no cérebro era temerária. William Scoville, o cirurgião encarregado da tarefa, optou por uma técnica desenvolvida pelo médico Wilder Penfield para identificar o tecido danificado e em seguida removê-lo. Encontrou extensas lesões nos lobos temporais mediais, mais conhecidos hoje como hipocampo. Toda a região foi extirpada. E junto com ela foi embora a epilepsia e a capacidade de Molaison de armazenar memórias.

Dupla amnésia: assim como a partir daquele momento nenhuma lembrança pôde ser retira, toda a memória pregressa, cobrindo um período de cerca de dez anos, foi apagada. Considerando que ele tinha 17 anos quando foi operado, sobraram apenas alguns resquícios da infância: o próprio nome, o pai e a mãe, o crash da bolsa americana em 1929, a Segunda Guerra, pouca coisa além disso.

Desde então seu déficit vem sendo estudado pela pesquisadora canadense Brenda Milner, da Universidade McGill. Molaison sempre se mostrou amável e cooperativo, embora a cada encontro com Milner, nessas últimas cinco décadas, ele se apresentasse como se nunca a tivesse visto antes.

É incrível imaginar que há 55 anos não se tinha a menor idéia do papel do hipocampo na formação e no armazenamento da memória. O distúrbio de Molaison foi decisivo para abrir as portas dessa pequena estrutura em forma de cavalo-marinho onde reside nada mais nada menos que aquilo chamamos identidade.

"O estudo de H. M e Brenda Milner é um dos grandes marcos da história das neurociências", disse ao New York Times hoje Eric Kandel, da Universidade Columbia, prêmio Nobel de medicina em 2000 e uma das maiores autoridades nessa área. "Isso abriu caminho para o estudo dos dois tipos de memória, a implícita e explícita, e forneceu as bases para tudo o que veio depois."

Molaison morreu de insuficiência respiratória, dois dias depois de ser submetido a uma ressonância magnética, parte da última pesquisa de que participou. Seu cérebro será guardado para futuras investigações. A neurocientista do MIT Suzanne Corkin, que nos últimos se associou Brenda Milner para acompanhar o caso, trabalha num livro sobre sua história e que deve se chamar A Lifetime Without Memory.

Aqui, um áudio sobre a história de H. M. em que se pode ouvir Brenda Milner fazendo perguntas a ele. Aqui, o primeiro artigo que descreve o caso, de 1957. E aqui, seu obituário no New York Times.

03/12/08

Congresso Internacional de Medicina, Londres, 1881





Esta é uma das mais antigas fotos de um evento científico (a fotografia era uma tecnologia recente). Participaram cerca de 3 mil médicos e pesquisadores, entre eles Jean-Martin Charcot, David Ferrier e Charles Scott Sherrington. Acho essa imagem de tirar o fôlego.

p.s. muito pouco tempo para posts mais elaborados. Até a semana que vem.
 
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