
“Tomei minha pílula às onze”, escreveu Aldous Huxley no livro
As portas da percepção, de 1954. “Uma hora e meia depois, eu não estava mais olhando um arranjo de flores. Estava vendo o que Adão viu na manhã de sua criação – o milagre, a existência nua, momento a momento. ‘São bonitas?’, alguém me perguntou. ‘Nem bonitas, nem feias. Simplesmente são’ – respondi.”
Nessa obra que inspirou o nome da banda americana
The doors, o escritor inglês, considerado o pioneiro do romance cerebral, descreveu suas experiências alucinatórias com a mescalina, alcalóide encontrado numa espécie de cacto. Nas décadas de 60 e 70, entretanto, “abrir as portas da percepção” era praticamente um sinônimo das “viagens” promovidas pelo ácido lisérgico, droga que Huxley também consumiu com entusiasmo.
Com uma história tão vertiginosa quanto os efeitos que produz no cérebro humano, o LSD (sigla em inglês para dietilamida do ácido lisérgico) completou 70 anos em novembro passado. Nenhuma outra droga – exceto suas congêneres psicodélicas como a mescalina e a psilocibina – é capaz de promover alterações tão radicais do estado mental, que uma boa parte dos usuários descreve como uma experiência de integração plena com a natureza, êxtase espiritual, iluminação mística.
Consumida intensamente por uma geração que pregava paz e amor regados a sexo, drogas e rock’n roll, o LSD arrebanhou adeptos no movimento de contracultura, ajudou a produzir gurus fanáticos e foi usado, sem muito sucesso, como “soro da verdade” em experimentos secretos de agências de inteligência, numa época em que a Guerra Fria justificava paranóias de todo tipo.

O LSD foi sintetizado pela primeira vez no dia 16 de novembro de 1938 pelo químico suíço Albert Hofmann no laboratório Sandoz, na Basiléia, que hoje é a divisão de genéricos do grupo Novartis. A pesquisa fazia parte de um grande projeto que buscava novos medicamentos derivados de alcalóides do ergot, um fungo que cresce em cereais como trigo e centeio. Hofmann já havia tido sucesso com a ergobasina, usada na época para facilitar as contrações do parto. Com esta nova molécula ele pretendia obter um estimulante para ser usado em problemas respiratórios e circulatórios. Os testes em animais, porém, não surtiram os efeitos esperados.
Cinco anos se passaram até que um “pressentimento peculiar”, como o químico definiria mais tarde, o fizesse voltar à bancada para sintetizar outra pequena amostra da substância que, como logo se percebeu, pode ser absorvida pela pele e pelas mucosas. Não tardou muito para Hofmann se sentir confuso e decidir terminar o expediente mais cedo. Em casa, deitado na cama, foi invadido por sensações estranhas, mas prazerosas. De olhos fechados, “percebia um fluxo ininterrupto de imagens fantásticas, formas extraordinárias, num jogo de cores intenso e caleidoscópico”, relatou em seu livro
Minha criança problema, de 1980.
Máscara coloridaTrês dias depois, precisamente em 19 de abril de 1943, Hofmann ingeriu intencionalmente 250 microgramas de LSD – uma dose ínfima comparada a de outros psicofármacos, pois ele sabia que os alcalóides do ergot eram extremamente potentes. Minutos mais tarde não parava de falar, ciente de que pouco do que dizia era inteligível. Ainda assim conseguiu pedir a seu assistente, que sabia do auto-experimento, que o levasse para casa.
Por causa da Segunda Guerra, automóveis não podiam circular na cidade e o trajeto foi feito de bicicleta. Na garupa, Holfmann observava uma paisagem distorcida e ondulada, e embora seu colega pedalasse com pressa, sua sensação era a de que ambos não saíam do lugar. “Uma vez em casa, minha condição começou a assumir formas ameaçadoras (...) Tudo no quarto girava ao meu redor e os objetos mais familiares assumiam formas grotescas (...) A vizinha, que reconheci parcamente, trouxe-me leite e, durante a noite, bebi mais de dois litros. Ela não era mais a senhora R. mas uma bruxa malévola, insidiosa, com uma máscara colorida.”
O LSD nunca foi comercializado como medicamento, mas a Sandoz o distribuía gratuitamente, sob a marca Delysid, para cientistas interessados em estudar seus efeitos mentais e seu potencial terapêutico. No fim dos anos 40, pesquisadores imaginavam que, como a droga era capaz de causar uma “psicose experimental”, a esquizofrenia poderia, portanto, ser causada pela liberação de algum tipo de “ácido lisérgico endógeno” no cérebro.
Logo foi demonstrado, no entanto, que os mecanismos da doença e do fármaco não tinham conexão alguma. Outros estudos defendiam a hipótese de que pequenas doses de LSD, por terem efeitos dramáticos na personalidade ou no estilo de vida, poderiam aliviar o sofrimento psíquico associado a memórias traumáticas tanto de adultos como de crianças. Os resultados foram igualmente frustrantes.

Com o mundo dividido pela Guerra Fria, o governo americano buscou na farmacologia métodos que pudessem facilitar a intensa rotina de interrogatórios. Com esse propósito a CIA criou, no início dos anos 50, o projeto MKULTRA, um programa secreto de pesquisas sobre o controle da mente. Embora a maioria dos arquivos tenha sido destruída em 1973 devido a denúncias de pesquisadores, várias evidências indicam que o LSD foi testado, sem consentimento, entre soldados e civis.
O governo britânico realizou experimentos semelhantes no MI6, como era chamado seu serviço de inteligência. Entre 1953 e 1954, um grupo de “voluntários” recebeu a droga alucinógena pensando que participava do estudo de um remédio para resfriados. Nos registros do projeto encontra-se o relato de um rapaz, na época com 19 anos: “Via as paredes derretendo, rachaduras no rosto das pessoas, os olhos escorregando até as bochechas, como numa pintura de Salvador Dalí”.
Tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, as pesquisas concluíram que o LSD não era a droga adequada para seus objetivos. Em 2006, o governo britânico assumiu a responsabilidade do testes e indenizou os participantes.
Expulsos de HarvardAo longo da década de 50, diversos pesquisadores da área de saúde mental nos Estados Unidos investigaram – legalmente – o potencial terapêutico do LSD em transtornos psiquiátricos. Nenhum deles, porém, ficou tão convencido que o alucinógeno era uma poderosa ferramenta de “crescimento espiritual” quanto os psicólogos Timothy Leary e Richard Alpert, ambos da Universidade Harvard.
Em 1961, eles divulgaram os resultados de um estudo em que a droga fora administrada a mais de 200 pessoas; cerca de 85% relataram a experiência como a mais “educacional” de suas vidas, segundo os autores. Há tempos os dois vinham estudando outro psicodélico – a psicilocibina –, alcalóide obtido de um cogumelo típico do México, país onde estiveram para fazer auto-experimentos. “Aprendi muito mais sobre o cérebro e suas possibilidades em cinco horas, depois de ter tomado esse cogumelo, do que nos últimos 15 anos de pesquisa em psicologia”, disse Leary a um jornal americano anos mais tarde.
A postura cada vez mais mística e menos científica de Leary e Alpert obviamente não agradava os dirigentes de Harvard. Quando descobriram, em 1963, que eles costumavam promover festinhas psicodélicas para seus alunos, ambos foram sumariamente demitidos. A esta altura, porém, a dupla já havia conquistado a simpatia de artistas e intelectuais, alguns deles milionários, que questionavam o status quo e, armados com flores, protestavam contra a guerra do Vietnã.
Assim eles conseguiram arrecadar recursos para comprar uma mansão em Millbrook, estado de Nova York, onde deram continuidade a seus experimentos. Já com o FBI em seu encalço, Leary fundou, em 1966, a Liga para a Descoberta Espiritual, seita na qual o LSD era um dos sacramentos. Nesse mesmo ano a droga tornou-se ilegal nos Estados Unidos e foi banida inclusive do ambiente acadêmico, orientação rapidamente seguida por vários países, entre eles o Brasil.

Desiludido, Alpert abandonou de vez a ciência e partiu para a Índia em 1967, onde passou a se chamar Baba Ram Dass. Já Leary se meteu em inúmeras confusões nos anos seguintes. Foi preso diversas vezes (em uma delas conseguiu fugir), concorreu com Ronald Reagan para o governo da Califórnia e em grandes encontros do movimento hippie difundiu seu famoso mantra
Turn on, tune in, drop out (“se ligue, sintonize, caia fora”, em tradução livre).
Protegido por amigos ilustres refugiou-se na Suíça por um tempo, teve um pedido de asilo negado pela coroa britânica e foi considerado pelo presidente Richard Nixon “o homem mais perigoso da América”. Morreu em 1996, vítima de câncer de próstata. Seu colega Alpert, hoje com 77 anos, mora nos Estados Unidos, onde criou várias organizações de divulgação das tradições espirituais do Oriente, mas desde 1997 convive com as limitações físicas decorrentes de um acidente vascular cerebral.
O pai da criançaAlbert Hofmann, o pai da “criança problema”, como ele mesmo se referia ao LSD, morreu em 29 de abril de 2008, aos 102 anos, na Suíça. Antes disso ele liderava a lista dos 100 gênios vivos do jornal britânico
Telegraph, à frente de nomes como Nelson Mandela, Steven Hawkings e Oscar Niemeyer.
O criador sempre lamentou que sua criatura tenha sido satanizada e proibida devido ao abuso de uma geração, acreditando que ela podia ser útil à medicina, embora reconhecesse que, em mãos erradas, representava um perigo para a sociedade. Segundo ele, o LSD deveria ter as mesmas restrições que a morfina, por exemplo.
Crítico da cultura materialista, o químico suíço aposentado defendia uma visão holística da consciência, sem cair no esoterismo fácil. “Ao longo da evolução humana, uma substância como o LSD nunca foi necessária. Mas ela é uma ferramenta capaz de nos remeter àquilo que nós podemos ser”, disse à revista americana
Wired em 2006, por ocasião da celebração de seu centenário.
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Post relacionado:
O LSD na psicoterapia (no Brasil).---------------------------------------------------------
Publiquei este texto na edição de junho de 2008 da revista Mente&Cérebro. Aqui ele sofreu alguns cortes e atualizações.