28/01/09

Memórias de família



Não é de hoje que a memória do tio C. não funciona muito bem. Nos últimos tempos, porém, apareceu um tipo diferente de esquecimento. Não são mais fatos, nomes, rostos; agora ele começou a esquecer como fazer certas coisas.

Por exemplo, o café. Todo dia, antes do sol nascer, como de praxe, ele fervia a água, colocava o pó no filtro, despejava a água fervente, adoçava o café no bule, transferia-o para a garrafa térmica e finalmente se servia numa canequinha de metal verde. Um belo dia ele se atrapalhou todo.

Quando a tia N. chegou à cozinha, encontrou o fogão todo respingado de água, a pia suja de pó de café, o filtro de papel dentro do bule e cheio de açúcar. (Mais tarde ela encontraria a canequinha verde no lixo.)

Enquanto isso ele zanzava pelo quintal. “Que bagunça é essa?”, gritou, não tanto de raiva, mas por causa da surdez, dela e dele. “Esqueci como faz”, exclamou entre indignado e já conformado, como quem perde a carteira na rua. Nunca mais se arriscou a fazer café.

Um tempo depois foi a vez da barba. A tia N. estranhou a demora no banheiro e quando abriu a porta o encontrou segurando a escova de dente dela. “Você não ia fazer a barba, C.?” Ele ficou nervoso. “Eu não sei mais como é que faz!”, disse mal-educado, enquanto pisava duro em direção à sala. A partir de então, visitas semanais ao barbeiro. O medo de tia N., e o nosso também, é do que virá pela frente, de que ele se esqueça de coisas tão importantes como tomar banho, vestir-se ou usar os talheres. Para ser otimista.

Tia N. e tio C. são irmãos, solteiros, sem filhos, ambos acima dos 80. De uma família de dez filhos, os demais já se foram. Tirando uma certa ansiedade que ela não tinha quando era mais nova, sua cabecinha até que vai muito bem. Provavelmente porque teve uma vida intelectual acima da média dos brasileiros.

Da vida adulta dele, no entanto, quase nada se sabe além do fato de ter trabalhado como tecelão e vivido muito anos em diferentes pensões no Bom Retiro. Parece que teve uns problemas com sífilis e álcool, mas já levava uma vida pacata quando voltou a viver com a irmã há quase duas décadas.

Os médicos dizem que tio C. não tem Alzheimer, mas uma demência senil de progressão lenta. Nos testes que fizeram ficamos sabendo que ele não sabe em que ano estamos, nem quem é o presidente da república. Quando perguntado sobre sua profissão, afirmou ser lavrador, embora tenha deixado a roça aos 18 anos e trabalhado por mais de 30 em tecelagens em São Paulo.

Outro dia o tio C. deu uma saída, como costuma fazer de vez em quando, sem nunca ir além da esquina. E a tia N. fica tranqüila porque os vigias da loja da frente, que ela vive agradando com quitutes, são camaradas e ficam de olho nele. Quando voltou, depois de uns 10 minutos, ela perguntou, só para encher o saco, onde ele tinha se enfiado. “Fui procurar emprego. Eu preciso trabalhar!”, disse. “E conseguiu alguma coisa?”, ela deu corda. “Não, tá todo mundo em greve.”

27/01/09

Museu de crânios da Unifesp




O G1 publicou no sábado passado (24/01) essa matéria sobre o Museu de Crânios da Unifesp, ao qual infelizmente poucos têm acesso.

A sala é pequena e dispõe apenas de três estantes, que vão do chão até quase o teto, e uma mesa com algumas cadeiras. Em cada prateleira, crânios de homens, mulheres e crianças, reunidos para formar o Museu de Crânios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), criado na década 1930. A sala é trancada a chave e poucos têm acesso livre ao museu. Um deles é o professor-titular Ricardo Smith, chefe da disciplina de anatomia da universidade.

Quem esperava que um museu só de crânios seria escuro, empoeirado e com ares de abandonado se engana. O museu, conta o professor, é um dos maiores e mais organizados do mundo e atrai pesquisadores de vários países.

Cada um dos 440 crânios do lugar é numerado, e cada número corresponde a uma página de um antigo caderno, que está amarelado e é manuseado com cuidado pelo professor. “Eu cuido um pouco, e sou responsável pelo museu”, diz.

Procurando por um número aleatório, de qualquer andar da estante, dá para saber o nome, sexo, com quantos anos a pessoa morreu, o motivo da morte e até se ela era casada ou não. Alguns crânios são de pessoas que não foram identificadas, mas para o professor, isso não faz diferença.

Leia mais e veja também as fotos aqui.

26/01/09

Mais Fritz Kahn


Continuo minha busca por mais informações sobre a vida e a obra de Fritz Kahn(1888-1968), um ilustrador e escritor alemão, autor de vários livros de divulgação científica (veja post anterior "O corpo-máquina de Fritz Kahn") e que estranhamente ainda não foi "wikipedizado"-- nem na sua língua materna.

Enquanto isso, mais duas ilustras dele, que achei no grupo "Vintage Anatomicals", do Flickr. Não sei que parte do corpo elas representam. A primeira tem umas células, no canto direito inferior, que parecem neurônios (e são muito lindas). A segunda tem uma bela "floresta de vasos" que eu me arriscaria a dizer que são do tubo digestivo, mas sinceramente não tenho a menor idéia. Qualquer informação será bem-vinda.


Do livro Man in Structure and Function, 1943.


Do livro Der mensch gesund und krank, 1940.


Mengele e os gêmeos de Cândido Godói



Reproduzo aqui a notícia que vi no blog da História Viva, sobre um novo livro sobre Mengele no Brasil, e que tem como destaque a relação entre a presença do médico nazista numa pequena cidade do Rio Grande do Sul e o alto índice de nascimento de gêmeos registrado lá durante sua estadia. Escrito por um jornalista argentino, o livro já foi traduzido para o inglês. Espero que alguma editora brasileira já tenha se interessado pelo título.


"O jornal inglês Telegraph publicou ontem que o médico nazista Josef Mengele poderia ser o responsável pelo alto número de gêmeos na pequena cidade de Cândido Godói, no interior do Rio Grande do Sul. A tese é do historiador argentino Jorge Camarasa, autor do livro, Mengele: the Angel of Death in South América, estudioso da fuga de nazistas para a América do Sul.

Mengele fez experiências no campo de concentração de Auschwitz, antes de fugir da Europa, e estudava justamente o que causava o nascimento de gêmeos. O objetivo da pesquisa era aumentar a taxa de fertilidade da Alemanha nazista. O corpo de Mengele foi localizado em São Paulo no fim da década de 1980.

Camarasa conversou com a população de Cândido Godói, a maioria de descendência germânica, e muitos contaram que um educado alemão que se apresentava como Rudolph Weiss, e era especialista em reprodução, passou pela cidade na década de 1960, pouco antes do surgimento dos gêmeos em série. Este homem, que muitos na cidade acreditam que era Mengele, atendeu mulheres, acompanhou gestações e as prescreveu medicação. Há uma ocorrência de gêmeos a cada cinco nascimentos em Cândido Godói, bem superior à média de um nascimento de gêmeos a cada 80 partos."

A matéria no Telegraph, muito boa, aqui.

E mais informações sobre o livro, numa matéria do Globo, aqui.

24/01/09

O homem-golfinho



Ele não revela seu nome, nem de onde vem (muito provavelmente, é americano). Diz ser pesquisador, não gosta de ser chamado de cientista e não concorda com a forma como a mídia aborda a ciência. Diz que está numa ilha do Pacífico, onde pretende passar entre três e cinco anos investigando como os golfinhos se comunicam uns com os outros e com outros cardumes de golfinhos, que podem estar a muitas milhas de distância.

Diz ainda que quer provar que os céticos estão enganados. "A maioria dos cientistas duvida de que isso é possível nessa escala - centenas de milhas - em que estou interessado. São os mesmos cientistas que dizem que os golfinhos não têm uma linguagem verdadeira, apenas uma suposta sinalização unidirecional, em vez de uma real comunicação de mão-dupla."


Quando começou a escrever seu blog, no fim de novembro passado, o Homem-golfinho (Dolphin man), como prefere ser identificado, não tinha muito o que fazer além de conhecer as belezas e as delícias da ilha vulcânica em que vive numa humilde cabana e interagir com os nativos - um rapaz que ele chama de Kiki é seu assistente.

Passou-se um mês, em que o desfrute deu lugar ao tédio, até que seus sensores chegassem. Ele também faz mistério sobre o equipamento, revela apenas ser uma tecnologia desenvolvida para fins militares (teria sido usada pelos americanos no Iraque) e que pela primeira será empregada para fins pacíficos.

No dia 7 de janeiro, o Homem-golfinho estava triste, decepcionado, revoltado. Depois de dias montando e testando a parafernália, concluiu que os sensores não estavam funcionando. "Eu liguei e desliguei tudo, refiz todas as configurações e fiquei até tarde da noite remontando, trabalhando no dia de Ano Novo e tudo, e eles simplesmente ainda não falam. Por que? Por que comigo? Por que comigo e por que agora? Estou no limiar de começar algo que pode revolucionar a forma como entendemos a comunicação de mamíferos marinhos e... não tenho palavras".

O fim da angústia foi registrado seis dias depois: "Eu sou um gênio! Ou a pessoa que me forneceu os sensores é um imbecil. Os receptores estavam ajustados para a frequência errada. Simples assim".

O Homem-golfinho parece ambicioso, e ao mesmo tempo quixotesco. No post seguinte, intitulado "O começo de algo grande", escreveu: "Depois de anos de planejamento, submissões [de projetos], modificações, ressubimissões, propostas, financiamentos, fundos, argumentos, apaziguamentos, reconciliação, vou finalmente mostrar não apenas aos céticos, mas ao mundo mais amplo da biologia, que a comunicação animal é (quase) tão avançada como qualquer coisa que o Homo sapiens trouxe ao mundo (...) As coisas não estão saindo exatamente como o planejado, mas bem o suficiente. Eu tenho um sensor em um golfinho e o sensor está funcionando."

Ainda não dá para saber se o Homem-golfinho é mesmo uma espécie de Dom Quixote da biologia marinha ou se vai realmente revolucionar o conhecimento sobre a linguagem destes simpáticos cetáceos. Se isso acontecer um dia, sua identidade certamente será revelada. De qualquer forma, já é uma história interessante: um pesquisador solitário e ambicioso, vivendo humildemente numa ilha que deve ser paradisíaca, amigo dos golfinhos. Hum, parece documentário do Discovery ou da National Geographic.

Para os interessados, o endereço novamente: thedolphinman.wordpress.com, (conheci via Nature Network).

20/01/09

A alucinante história do LSD



“Tomei minha pílula às onze”, escreveu Aldous Huxley no livro As portas da percepção, de 1954. “Uma hora e meia depois, eu não estava mais olhando um arranjo de flores. Estava vendo o que Adão viu na manhã de sua criação – o milagre, a existência nua, momento a momento. ‘São bonitas?’, alguém me perguntou. ‘Nem bonitas, nem feias. Simplesmente são’ – respondi.”

Nessa obra que inspirou o nome da banda americana The doors, o escritor inglês, considerado o pioneiro do romance cerebral, descreveu suas experiências alucinatórias com a mescalina, alcalóide encontrado numa espécie de cacto. Nas décadas de 60 e 70, entretanto, “abrir as portas da percepção” era praticamente um sinônimo das “viagens” promovidas pelo ácido lisérgico, droga que Huxley também consumiu com entusiasmo.

Com uma história tão vertiginosa quanto os efeitos que produz no cérebro humano, o LSD (sigla em inglês para dietilamida do ácido lisérgico) completou 70 anos em novembro passado. Nenhuma outra droga – exceto suas congêneres psicodélicas como a mescalina e a psilocibina – é capaz de promover alterações tão radicais do estado mental, que uma boa parte dos usuários descreve como uma experiência de integração plena com a natureza, êxtase espiritual, iluminação mística.

Consumida intensamente por uma geração que pregava paz e amor regados a sexo, drogas e rock’n roll, o LSD arrebanhou adeptos no movimento de contracultura, ajudou a produzir gurus fanáticos e foi usado, sem muito sucesso, como “soro da verdade” em experimentos secretos de agências de inteligência, numa época em que a Guerra Fria justificava paranóias de todo tipo.

O LSD foi sintetizado pela primeira vez no dia 16 de novembro de 1938 pelo químico suíço Albert Hofmann no laboratório Sandoz, na Basiléia, que hoje é a divisão de genéricos do grupo Novartis. A pesquisa fazia parte de um grande projeto que buscava novos medicamentos derivados de alcalóides do ergot, um fungo que cresce em cereais como trigo e centeio. Hofmann já havia tido sucesso com a ergobasina, usada na época para facilitar as contrações do parto. Com esta nova molécula ele pretendia obter um estimulante para ser usado em problemas respiratórios e circulatórios. Os testes em animais, porém, não surtiram os efeitos esperados.

Cinco anos se passaram até que um “pressentimento peculiar”, como o químico definiria mais tarde, o fizesse voltar à bancada para sintetizar outra pequena amostra da substância que, como logo se percebeu, pode ser absorvida pela pele e pelas mucosas. Não tardou muito para Hofmann se sentir confuso e decidir terminar o expediente mais cedo. Em casa, deitado na cama, foi invadido por sensações estranhas, mas prazerosas. De olhos fechados, “percebia um fluxo ininterrupto de imagens fantásticas, formas extraordinárias, num jogo de cores intenso e caleidoscópico”, relatou em seu livro Minha criança problema, de 1980.

Máscara colorida
Três dias depois, precisamente em 19 de abril de 1943, Hofmann ingeriu intencionalmente 250 microgramas de LSD – uma dose ínfima comparada a de outros psicofármacos, pois ele sabia que os alcalóides do ergot eram extremamente potentes. Minutos mais tarde não parava de falar, ciente de que pouco do que dizia era inteligível. Ainda assim conseguiu pedir a seu assistente, que sabia do auto-experimento, que o levasse para casa.

Por causa da Segunda Guerra, automóveis não podiam circular na cidade e o trajeto foi feito de bicicleta. Na garupa, Holfmann observava uma paisagem distorcida e ondulada, e embora seu colega pedalasse com pressa, sua sensação era a de que ambos não saíam do lugar. “Uma vez em casa, minha condição começou a assumir formas ameaçadoras (...) Tudo no quarto girava ao meu redor e os objetos mais familiares assumiam formas grotescas (...) A vizinha, que reconheci parcamente, trouxe-me leite e, durante a noite, bebi mais de dois litros. Ela não era mais a senhora R. mas uma bruxa malévola, insidiosa, com uma máscara colorida.”

O LSD nunca foi comercializado como medicamento, mas a Sandoz o distribuía gratuitamente, sob a marca Delysid, para cientistas interessados em estudar seus efeitos mentais e seu potencial terapêutico. No fim dos anos 40, pesquisadores imaginavam que, como a droga era capaz de causar uma “psicose experimental”, a esquizofrenia poderia, portanto, ser causada pela liberação de algum tipo de “ácido lisérgico endógeno” no cérebro.

Logo foi demonstrado, no entanto, que os mecanismos da doença e do fármaco não tinham conexão alguma. Outros estudos defendiam a hipótese de que pequenas doses de LSD, por terem efeitos dramáticos na personalidade ou no estilo de vida, poderiam aliviar o sofrimento psíquico associado a memórias traumáticas tanto de adultos como de crianças. Os resultados foram igualmente frustrantes.

Com o mundo dividido pela Guerra Fria, o governo americano buscou na farmacologia métodos que pudessem facilitar a intensa rotina de interrogatórios. Com esse propósito a CIA criou, no início dos anos 50, o projeto MKULTRA, um programa secreto de pesquisas sobre o controle da mente. Embora a maioria dos arquivos tenha sido destruída em 1973 devido a denúncias de pesquisadores, várias evidências indicam que o LSD foi testado, sem consentimento, entre soldados e civis.

O governo britânico realizou experimentos semelhantes no MI6, como era chamado seu serviço de inteligência. Entre 1953 e 1954, um grupo de “voluntários” recebeu a droga alucinógena pensando que participava do estudo de um remédio para resfriados. Nos registros do projeto encontra-se o relato de um rapaz, na época com 19 anos: “Via as paredes derretendo, rachaduras no rosto das pessoas, os olhos escorregando até as bochechas, como numa pintura de Salvador Dalí”.

Tanto nos Estados Unidos como no Reino Unido, as pesquisas concluíram que o LSD não era a droga adequada para seus objetivos. Em 2006, o governo britânico assumiu a responsabilidade do testes e indenizou os participantes.

Expulsos de Harvard
Ao longo da década de 50, diversos pesquisadores da área de saúde mental nos Estados Unidos investigaram – legalmente – o potencial terapêutico do LSD em transtornos psiquiátricos. Nenhum deles, porém, ficou tão convencido que o alucinógeno era uma poderosa ferramenta de “crescimento espiritual” quanto os psicólogos Timothy Leary e Richard Alpert, ambos da Universidade Harvard.

Em 1961, eles divulgaram os resultados de um estudo em que a droga fora administrada a mais de 200 pessoas; cerca de 85% relataram a experiência como a mais “educacional” de suas vidas, segundo os autores. Há tempos os dois vinham estudando outro psicodélico – a psicilocibina –, alcalóide obtido de um cogumelo típico do México, país onde estiveram para fazer auto-experimentos. “Aprendi muito mais sobre o cérebro e suas possibilidades em cinco horas, depois de ter tomado esse cogumelo, do que nos últimos 15 anos de pesquisa em psicologia”, disse Leary a um jornal americano anos mais tarde.

A postura cada vez mais mística e menos científica de Leary e Alpert obviamente não agradava os dirigentes de Harvard. Quando descobriram, em 1963, que eles costumavam promover festinhas psicodélicas para seus alunos, ambos foram sumariamente demitidos. A esta altura, porém, a dupla já havia conquistado a simpatia de artistas e intelectuais, alguns deles milionários, que questionavam o status quo e, armados com flores, protestavam contra a guerra do Vietnã.

Assim eles conseguiram arrecadar recursos para comprar uma mansão em Millbrook, estado de Nova York, onde deram continuidade a seus experimentos. Já com o FBI em seu encalço, Leary fundou, em 1966, a Liga para a Descoberta Espiritual, seita na qual o LSD era um dos sacramentos. Nesse mesmo ano a droga tornou-se ilegal nos Estados Unidos e foi banida inclusive do ambiente acadêmico, orientação rapidamente seguida por vários países, entre eles o Brasil.

Desiludido, Alpert abandonou de vez a ciência e partiu para a Índia em 1967, onde passou a se chamar Baba Ram Dass. Já Leary se meteu em inúmeras confusões nos anos seguintes. Foi preso diversas vezes (em uma delas conseguiu fugir), concorreu com Ronald Reagan para o governo da Califórnia e em grandes encontros do movimento hippie difundiu seu famoso mantra Turn on, tune in, drop out (“se ligue, sintonize, caia fora”, em tradução livre).

Protegido por amigos ilustres refugiou-se na Suíça por um tempo, teve um pedido de asilo negado pela coroa britânica e foi considerado pelo presidente Richard Nixon “o homem mais perigoso da América”. Morreu em 1996, vítima de câncer de próstata. Seu colega Alpert, hoje com 77 anos, mora nos Estados Unidos, onde criou várias organizações de divulgação das tradições espirituais do Oriente, mas desde 1997 convive com as limitações físicas decorrentes de um acidente vascular cerebral.

O pai da criança
Albert Hofmann, o pai da “criança problema”, como ele mesmo se referia ao LSD, morreu em 29 de abril de 2008, aos 102 anos, na Suíça. Antes disso ele liderava a lista dos 100 gênios vivos do jornal britânico Telegraph, à frente de nomes como Nelson Mandela, Steven Hawkings e Oscar Niemeyer.

O criador sempre lamentou que sua criatura tenha sido satanizada e proibida devido ao abuso de uma geração, acreditando que ela podia ser útil à medicina, embora reconhecesse que, em mãos erradas, representava um perigo para a sociedade. Segundo ele, o LSD deveria ter as mesmas restrições que a morfina, por exemplo.

Crítico da cultura materialista, o químico suíço aposentado defendia uma visão holística da consciência, sem cair no esoterismo fácil. “Ao longo da evolução humana, uma substância como o LSD nunca foi necessária. Mas ela é uma ferramenta capaz de nos remeter àquilo que nós podemos ser”, disse à revista americana Wired em 2006, por ocasião da celebração de seu centenário.

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Post relacionado: O LSD na psicoterapia (no Brasil).

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Publiquei este texto na edição de junho de 2008 da revista Mente&Cérebro. Aqui ele sofreu alguns cortes e atualizações.
 
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