24/02/09

Campo eletromagnético e câncer de mama - o caso de San Diego


Algo de errado andou ocorrendo nos últimos anos no departamento de literatura da Universidade da Califórnia em San Diego. Entre 2000 e 2006, oito funcionárias que trabalhavam num de seus edifícios, o Literature Building, foram diagnosticadas com câncer de mama, informa um relatório elaborado pelo epidemiologista Cedric Garland a pedido da universidade. Segundo Garland, esse número está acima do que seria esperado pelo acaso. As idades das mulheres quando diagnosticadas eram 35, 43, 47, 56, 58, 60, 60 e 62 anos.

O epidemiologista pesquisou possíveis causas ambientais. Não encontrou fungos e toxinas suspeitas. A qualidade da água é boa. Nada de isótopos radioativos, solventes e reagentes carcinogênicos, que até podem ser encontrados em vários laboratórios do campus, mas não ali no departamento de literatura. O passo seguinte foi investigar a configuração das instalações elétricas, particularmente nos pontos de alta tensão. Garland acabou deparando com um motor compressor que alimenta o elevador hidráulico do edifício e que está localizado numa pequena sala no andar térreo, o mesmo onde trabalhavam as funcionárias que adoeceram.

Geralmente esse tipo de motor fica instalado num andar subterrâneo ou porão, mas esse edifício não foi projetado dessa forma. O campo eletromagnético gerado pela máquina e a que os funcionários do térreo estão expostos é de 2,5 miliGauss. Raríssimos países têm recomendações para limites de exposição a campos eletromagnéticos no ambiente de trabalho. Um deles é a Suécia. Lá, o máximo aceitável é 2,0 miliGauss.

Estudos sobre os efeitos de campos eletromagnéticos (CEM) na saúde humana são poucos e conflitantes, mas há alguns que sugerem uma relação com câncer de mama. Um deles, publicado no Biochemical and Biophysical Research Communications em 2005, mostra que culturas de células tumorais expostas a CEM de baixa intensidade são mais resistentes à ação do tamoxifeno, uma das principais drogas usadas no tratamento do câncer de mama.

O relatório de Garland foi entregue à direção do campus em junho do ano passado (só agora divulgado), com uma série de recomendações que vão desde esclarecimentos às funcionárias do prédio, para que saibam do possível risco a que estão expostas, até a mudança do motor para um local mais seguro.
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Neste momento o caso está sendo investigado pela epidemiologista Leeka Kheifets; sua avaliação é esperada ainda neste semestre, informa o site Microwave News. Mas já são várias as críticas à indicação de Kheifets para a tarefa, já que ela trabalha como colaboradora do Eletric Power Research Institute, uma instituição independente e sem fins lucrativos, mas financiada por grandes empresas do setor elétrico. Vamos ver no que vai dar.

Tudo isso lembra muito a história dos telefones celulares, e da suspeita de que eles podem causar câncer - um imbróglio fenomenal e que a cada ano fica mais complicado. Eu sou do time que ainda não está convencido de que a radiação eletromagnética não-ionizante emitida por essas maquininhas é absolutamente inócua. Creio que há razões suficientes (o caso de San Diego é mais uma) para pelo menos ficar com a pulga atrás da orelha. Volto ao assunto num próximo post.

20/02/09

Olha a história da saúde na avenida aí gente!




Foi com imensa alegria que descobri que a minha escola de samba do coração, a Vai-Vai, trará ao sambódromo paulistano a história da saúde. (Reparem no Homem Vitruviano carnavalesco aí ao lado.)

O enredo de 2009 é Mens sana et corpores sano - o milênio da superação. O desfile será no sábado e está previsto para as 3h.

Para que vocês entendam melhor toda a complexidade desse enredo, reproduzo o texto publicado no site desta tradicional agremiação do bairro do Bixiga que foi campeã do carnaval paulista em 2008. Apenas destaquei em negrito alguns trechos mais interessantes.



Novos tempos... Nova era, a era da superação!!!

Os seres humanos, entes pensantes e dotados de inteligência, ao longo de sua conturbada história de transformação do planeta água que habita, por inúmeras vezes demonstrou que a sua faculdade de pensamento conduziu a humanidade por caminhos nada dignos de elogios.

Neste enredo, o grito audacioso da VAI-VAI ecoa a toda nação e ao planeta que é chegada a hora ! Este grito e uma coisa corajosa proposta a responsabilidade que cada um tem para que "Em uníssono", clamar pela panacéia de todos os males. Algumas civilizações deixaram registro na história sobre a conduta de higiene, conhecimentos de medicina e curas que elevaram a qualidade de vida de seus cidadãos.

Grande exemplo para nós foi a conquista da península ibérica pelos mouros, os quais lá permaneceram por oito séculos, influenciando de forma altamente positiva com sua progressista tecnologia, hábitos de higiene, sanitarismo, arte, arquitetura, matemática e principalmente medicina, benefícios que perduram ate nossos dias na cultura ocidental.

Os séculos que se seguiram a sua expulsão foram deploráveis no aspecto da saúde humana. A instituição do "corpo de pecado" da cristandade sepultando a natural nudez humana no peso da condenação por luxuria, a negação dos salutares banhos corpóreos aliados ao fechamento dos "banhos públicos", também herança do império Romano, resultou na paulatina abolição do costume. O resultado foi a disseminação da "Peste Negra" que dizimou 30 % da população européia.

O Homem vitruviano e o nosso paradoxo, uma real contradição, sendo saudável e viciado, antigo e moderno, são e enfermo, belo e grotesco, natural e mecânico, perfeito e anômalo e o nosso grande artífice da SUPERAÇÃO. A medicina que é misteriosa e encantadora aliviou as dores da humanidade ora lançando mão das Panacéias, ora das curas supra-fisicas. Desde os primórdios grandes xamas, sacerdotes, monges, gurus, astrólogos, magos, alquimistas e médicos... Todos pertencem e obedecem a grande mandala universal que define os rumos da evolução e do conhecimento humano. Na mandala há o equilíbrio de forças e agentes, há a contagem do tempo e suas exigências. Há a infusão da cura ou sua supressão, há luz e sombra... Terror e glória !

Agora é a hora! E antes que a morte chegue em asas ligeiras assolando, dizimando e sangrando corações a VAI-VAI olha para o futuro, respaldada pelas glórias do passado, e grita bem alto, caminhando e cantando, no rastro das alas e alegorias pelo piso limpo do sambódromo, seguindo os passos do homem vitruviano. Mãos para o céu, acolhendo as bênçãos e fluvios celestes, juntos com todo o povo do criado entoando a palavra-chave que a conduz neste carnaval: " SAUDE PARA TODOS "

13/02/09

Santa Cristina, a admirável




Ela não é exatamente uma santa, isto é, beatificada e canonizada segundo os protocolos apostólicos romanos, mas é conhecida como a padroeira dos psiquiatras.

Santa Cristina, a admirável, nasceu em Liège, Bélgica, em 1150. Aos 22 anos teve uma convulsão devastadora e foi dada como morta. Conta-se que, no dia seguinte, enquanto seu corpo era velado numa igreja, ela despertou e levantou do caixão. Todo mundo se mandou do recinto, exceto sua irmã, a quem ela reclamou do cheiro de alho que pairava no ar. Não demorou muito para o público e os padres voltarem, para encontrá-la levitando próxima ao teto.

Cristina então contou que durante sua "morte" esteve no Inferno, um lugar escuro e terrível cheio de almas atormentadas. O pessoal a informou do equívoco: pela descrição aquilo mais parecia o Purgatório. De qualquer forma, a moça teria voltado para sofrer na Terra e assim aliviar o sofrimento dos vivos.

Essa história é contada num artigo publicado na revista Neurology (via Mind Hacks) em maio passado por Sallie Baxendale, do National Hospital for Neurology and Neurosurgery, em Londres, que discute a hipótese de que Cristina tenha sofrido de epilepsia, assim como vários outros santos e figuras místicas (ex. São Sebastião, São Paulo, Joana D'Arc e muitos outros).

A aparente alucinação olfativa da santa, que muitas vezes se refugiava no alto das árvores para ficar livre da pestilência do pecado humano, embora seja um sintoma curioso, na verdade não é muito valorizado pela autora em sua tese. Para ela, os relatos de vergonha e baixa auto-estima que Cristina experimentava depois das crises são mais sugestivos da epilepsia.

Baxendale não menciona Santa Cristina como a padroeira dos psiquiatras, mas a informação pode ser encontrada em alguns sites. No entanto, a autora finaliza o texto dizendo que é improvável que ela seja beatificada, mas se isso acontecesse, "seria apropriado que fosse adotada como santa padroeira da qualidade de vida dos pacientes epileticos".

A graciosa ilustração no alto é de Giselle Potter e foi publicada no livro Lucy's Eyes and Margaret's Dragon, The Lives of the Virgin Saints, também de sua autoria, que reúne biografias curtas de 13 santas virgens.

12/02/09

Oba, oba, oba, Charles




Difícil escrever sobre os 200 anos de Darwin depois da enxurrada de textos que li (e outros pelos quais apenas passei os olhos) desde o último fim de semana e especialmente hoje. Mas eu também não poderia deixar a data passar em branco. Então o melhor que posso fazer são alguns comentários sobre coisas que me chamaram a atenção ao longo desta gloriosa semana de celebração.

Nicholas Wade no NYT (traduzido no UOL hoje): "Uma das vantagens de Darwin é que ele não teve de escrever propostas para bolsas de pesquisa ou publicar 15 artigos por ano. Ele pensou profundamente sobre cada detalhe de sua teoria por mais de 20 anos antes de publicar "A Origem das Espécies", em 1859, e por 12 anos mais, antes de sua sequência, "The Descent of Man", que abordava como sua teoria era aplicada ao ser humano."
Uma das coisas que eu acho mais incríveis em Darwin foi essa capacidade de ruminar uma idéia por tão longo tempo -- com certeza é daí que vem boa parte de sua força. Pergunto-me quantas coisas a ciência pode estar deixando de entender por causa do ritmo alucinado de fazer pesquisa que se vê hoje.

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Silvia Colombo na Folha do último domingo: "A terceira [causa para a ascenção do criacionismo no Reino Unido] seria o "desfavor que vêm fazendo à ciência os ditos intelectuais neodarwinistas". Entre eles, o principal culpado seria o também britânico Richard Dawkins, autor de "O Gene Egoísta" e "Deus, um Delírio" (Companhia das Letras), que, por meio das ideias de Darwin, defende o ateísmo. "Não é sua intenção, mas ao fazer campanha pró-evolução, Dawkins tem estimulado a ascensão do criacionismo neste país. Sua mensagem, repetida de modo simplório em igrejas, mesquitas e sinagogas, é a de que "a evolução significa ateísmo", ao que os fiéis são levados a responder: "Bem, não aceitamos o ateísmo, então também não apoiamos a evolução"." Segundo ele, ao lutar contra algo com violência, Dawkins estaria estimulando um comportamento extremo oposto. "Um fenômeno social muito comum na história das ideias", conclui [Denis] Alexander [diretor do Instituto Faraday]
Concordo plenamente. Dawkins está dando um tiro no pé. A ciência não pede conversão ao ateísmo; para muitos cientistas é perfeitamente possível compatibilizar seus credos com o darwinismo, mas poucos admitem sua fé publicamente. E não é para menos, o discurso ateísta quase sempre intimida, pois parte de uma premissa (às vezes tácita, às vezes declarada) de que as pessoas que crêem em alguma força transcendente são idiotas, ou contraditórias, ou fracas. Seria interessante fazer uma pesquisa sobre isso: quantos pesquisadores são realmente ateus? Talvez a gente se surpreenda com os resultados. Como muitos já disseram por aí, o próprio Darwin não ficaria contente com essa associação equivocada.

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De novo Silvia Colombo na Folha, hoje: "Enquanto aqui a efeméride ainda não causa grande movimentação no mercado editorial, no Reino Unido novos estudos iluminam diversos aspectos da trajetória do cientista."
É impressinante a indiferença do mercado editorial brasileiro com as efemérides científicas de 2009. No Ano Internacional da Astronomia, vários livros do Carl Sagan, como Cosmos e Pálido Ponto Azul, estão esgotados. Sobre a dupla comemoção darwiniana, até onde sei só foi lançado Charles Darwin - Em um futuro não muito distante, uma edição do Instituto Sangari. Ah, vai ter um livro do Reinaldo José Lopes, que promete ser bem mais interessante (já me explico). Será que até novembro, quando A origem das espécies completar 150 anos, sai mais alguma coisa? Será que o retorno comercial é tão ruim a ponto de não interessar as editoras? Ou será que elas simplesmente não se ligaram nas datas?

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O livro Charles Darwin - Em um futuro não muito distante vai ser lançado em São Paulo na próxima terça (17/02) na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. O Instituto Sangari gentilmente me mandou um exemplar, porque eu entrevistei um dos organizadores para uma materiazinha que vai na sair na Revista da Cultura no mês que vem.

Trata-se uma reunião de textos escritos por pesquisadores com base em palestras que eles deram em 2007 quando a exposição sobre Darwin, trazido ao Brasil pelo Sangari, percorreu várias capitais. O livro está muito bem editado, nota-se o esforço dos autores para usar uma linguagem simples, os capítulos cobrem vários aspectos e não se repetem, enfim é uma ótima fonte de informação. Mas, sinceramente, não empolga. Falta aquela fagulha, uma certa engenhosidade, que torna um livro de divulgação científica delicioso, e que eu encontro nos textos do Reinaldo, só para citar alguém que escreve muito sobre evolução e ainda por cima têm uma qualidade que eu aprecio muito: bom-humor.

Claro que, por se tratar de uma coletânea, uns textos fluem mais que outros, mas quem leva a melhor sem sombra de dúvida é a neurocientista Suzana Herculano-Houzel da UFRJ, justamente pela prática que ela tem. O psicólogo da USP César Ades, por exemplo, de quem eu sou tiete há muitos anos, fala de coisas muito interessantes, mas num tom monocórdico, assim como vários outros autores. Os dois capítulos que eu achei mais interessantes (Maria Isabel Landim e Cristiano Rangel Moreira, e Armando Bittencourt) se concentram na viagens, de Darwin e Wallace, provavelmente porque até hoje eu quase não li nada sobre o assunto - para quem já conhece, talvez não tenha muita graça. Mas um texto como esse do Ulisses Capozzoli na Sciam, por exemplo, é infinitamente mais gostoso, até para quem já leu antes a respeito.

Também tenho de destacar o capítulo do Nelio Bizzo (ECA-USP), pelos prós e pelos contras. Ele trata de alguns mitos sobre Darwin difundidos através dos anos. Um deles é o de que A origem teria sido um best-seller. O autor faz um bom apanhado histórico que cobre várias edições da obra e conclui que ela não foi um sucesso de vendas. Outro mito é o de que Darwin teria contraído a doença de Chagas na América do Sul. Essa questão nem é tão polêmica, pouca gente acredita nisso. Bizzo é mais econômico nesse assunto e conclui apenas que "o que se pode afirmar, com grande margem de acerto, é que a saúde de Darwin foi oscilante, desde a infância, alterando períodos em que havia uma debilidade muito grande - a ponto de incapacitá-lo para o trabalho - e períodos de grande vigor e disposição".

O terceiro mito - este eu não tinha visto ninguém contestar - se refere àquela história de Karl Marx ter querido dedicado O capital a Darwin. Parece que não é verdade. Existe sim uma carta com essa oferta, mas ela não tem remetente e não cita o nome da obra que seria prefaciada. Há também uma resposta de Darwin (que um exame grafológico confirmou ser dele mesmo), mas também não dá para saber a quem ela foi dirigida. Na década de 70, vários historiadores se debruçaram sobre o mistério. Segundo um deles, o convite não teria partido de Marx, mas de um "controvertido" genro dele, Edward Aveling, que publicou um livro sobre o naturalista inglês - The student's Darwin. Embora Bizzo ofereça alguns detalhes intrigantes dessa polêmica, ele infelizmente termina com um parágrafo lacônico, decepcionante e sem referência: "Retomada em artigo em 1979, a questão da autoria, estabelecida de forma convincente, esclareceu, definitivamente, que Marx não foi autor de nenhum convite a Darwin".

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Enfim, depois deste festival darwiniano, será que vai sobrar alguma assunto para novembro? Aliás, será que Darwin vai ser tema de alguma escola de samba nesse carnaval? Olha, até que ficaria bem bonito...

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P.S. Meio deselegante fazer isso, mas com tantos nascidos pós-anos 80 na blogosfera, não custa nada: se não entendeu o título do post: ouça aqui.

05/02/09

Manual do orgasmo - 1950


Das formas de o casal chegar ou não ao orgasmo simultâneo. Pérola achada no Flickr. Clique na imagem para ver os detalhes e as legendas.


Fonte: The Illustrated Encyclopedia of Sex by Drs. Willy, Vander, and Fisher, as well as Other Authorities. Cadillac Publishing Co., Inc., New York, 1950.

04/02/09

Tudo pela higiene


Paradoxal? Eu quero um desses no meu banheiro!



Achei no sempre surpreendente Street Anatomy.

Dia mundial do câncer, ou: fortes suspeitas de uma guerra equivocada



Hoje é o Dia Mundial do Câncer. Este ano o enfoque da campanha global, coordenada pela UICC e pela OMS, é a importância da prevenção da obesidade e do sobrepeso na infância, fatores de risco para a doença na idade adulta.

Como todos sabem, o câncer não é uma única doença, mas um conjunto de cerca 150 doenças com características bem diferentes, que têm como ponto em comum uma anomalia muito bem resumida numa frase do dramaturgo inglês Harold Pinter, morto em dezembro passado: "Células cancerosas são aquelas que esqueceram de morrer".

Por um dessas coincidências da vida, comecei a ler há alguns dias o livro The secret history of the war on cancer, da epidemiologista americana Devra Davis, da Universidade Pittsburgh. É um catatau de quase 500 páginas, das quais li até agora as 30 primeiras - o suficiente, porém, para ficar com os cabelos em pé e temer pelo que vem em seguida.

Segundo Davis, a história da luta contra o câncer tem sido marcada por batalhas erradas, com armas erradas e contra inimigos errados. A ênfase atual nos fatores genéticos e nos ligados aos estilo de vida e ao envelhecimento populacional joga para debaixo do tapete o papel de fatores ambientais (aditivos alimentares, pesticidas, poluição etc) na causa do câncer. E por que? Interesses econômicos, claro.

"O envelhecimento da população não explica por que o câncer cerebral atinge cinco vezes mais homens e mulheres no Estados Unidos do que no Japão. Tampouco entendemos por que os casos de câncer de testículo antes dos 40 anos aumentaram 50% em uma década nos países industrializados, por que as mulheres de hoje têm duas vezes mais câncer que suas avós, or por que muito mais jovens negras americanas morrem de câncer de mama do que as brancas. (...) O envelhecimento também não explica por que muito mais crianças desenvolvem câncer atualmente. (p. 5)

(...) Defeitos genéticos herdados não respondem pela maioria dos casos de câncer de mama. Nove entre cada dez mulheres que desenvolvem a doença nasceram com genes perfeitamente saudáveis. Quando eu era menina, uma em cada dez mulheres tinha câncer de mama; quando minha amiga Andrea [que morreu da doença] chegou à meia-idade, era uma em sete. Ninguém conseque explicar por quê. Nós sabemos que vivemos num mar de estrógenos sintéticos e outros hormônios e que somos rotineiramente expostos a substâncias que não existiam antigamente. Os produtores desses agentes se confortam com o fato de que todos eles, testados individualmente, parecem benignos quando submetidos a várias medidas de potencial carcinogênico (...) No entanto, é desafiar o senso comum e a biologia básica dizer que, só porque um agente parece inócuo quando analisado individualmente, nós estamos seguros quando expostos a centenas deles de uma só vez" (p. 7).

Devra Davis não parece uma aventureira. O livro é a síntese de um trabalho de 20 anos no qual ela reuniu diversas evidências científicas, localizou documentos intencionalmente esquecidos e conquistou muitas inimizades.

"Nós nunca gastamos tanto dinheiro para tratar o câncer e desenvolver novas terapias - cerca de 100 bilhões de dólares por ano [nos EUA], mas quando o assunto é traçar as causas da doença, temos derrapado na ineficiência. Por que? Teria o fato de muitos líderes da guerra contra o câncer terem lucrado tanto dos produtores de agentes causadores do câncer como da indústria de drogas anticâncer alguma coisa a ver com a constatação de que tanto a incidência como as opções de tratamento aumentaram significativamente?

"Claro que não. Lembre-se que vivemos num mundo altamente tecnológico e interconectado. É mais seguro, e melhor para sua reputação na sociedade culta, continuar repetindo que essa é uma doença incrivelmente complexa..." (p. 11)

Medo, meus caros. Muito medo.

The secret history of the war on cancer foi lançado em 2007 nos EUA e acaba de ser traduzido na Itália.

03/02/09

Darwinismo e criacionismo


Ando queimando os miolos para escrever uma matéria sobre o embate entre evolucionistas e criacionistas sem falar mais do mesmo. Ok, de um jeito ou de outro eu chego lá. Entretanto, o que mais me impressionou durante a pesquisa é o quanto essa onda criacionista é realmente forte. Eu nunca havia dado muito atenção a isso.

Achei uma penca de blogs sobre o assunto, todos com o mesmo discurso jocoso, mas muitas vezes bastante articulado, em relação à teoria da evolução. Na grande maioria, a defesa é não a daquele criacionismo bíblico, mas do design inteligente, uma versão bem mais sofisticada que utiliza justamente uma lógica (pseudo)científica e se apega apaixonadamente aos pontos supostamente mais vulneráveis do evolucionismo.

Não vou perder meu tempos analisando os argumentos deles. O que me interessa é a motivação dessas pessoas, a "mente criacionista", por assim dizer. Como ainda ninguém fez um estudo de ressonância magnética funcional sobre o assunto, recorro a um cara que não é muito bem visto pelos dois lados dessa guerra: Freud. Não sou profunda conhecedora da psicanálise, que eu entendo mais como uma filosofia, mas confesso que aprecio algumas idéias do velho Sigmund. Uma delas é a que fala das três feridas narcísicas.

Muito resumidamente: a primeira ferida narcísica foi infligida por Copérnico, por tirar a Terra, e logo, o homem, do centro do Universo. A segunda foi obra de Darwin, que revelou que o ser humano não é especial nem foi criado por Deus. A terceira ferida é assinada pelo próprio Freud, que afirmou que a consciência é uma manifestação menor e mais frágil da mente humana.



Se ninguém pode questionar o heliocetrismo de Copérnico, em compensação os pressupostos freudianos costumam receber muita pancada. O que importa aqui, no entanto, é a ferida darwiniana.

Todo o discurso criacionista, a meu ver, só serve para evitar a dor que eles sentiriam se esta ferida estivesse exposta. É simplesmente intolerável, para eles, pensar que o mundo, os seres vivos e especialmente o ser humano não foram criados com uma intenção divina. O comentário que vi num post sobre o assunto no blog da Mayana Zatz é emblemático: "Deve ser duro ser cientista. Ter que negar a existência de um Deus criador de tudo, e não ter nada para pôr no lugar." Olha aí a ferida.

Conversei com um sociólogo da UFF sobre assunto, para quem o recrudescimento do criacionismo nos últimos anos tem um paralelo com a deterioração das condições de vida de uma grande parte da população (dados da ONU) que, por sua vez, tem relação com essa instabilidade social gerada pela globalização; tudo isso vem acompanhado de vulnerabilidade, incerteza e desamparo. Nem é preciso dizer que aí estão os ingredientes para a expansão das religiões evangélicas, redutos criacionistas por excelência.

Então pergunto para o pesquisador se ele acha que os esforços para divulgar a ciência e a cultura científica, como é comum ouvir de muitos cientistas, podem ser realmente eficazes para combater a expansão do fundamentalismo criacionista, afinal, a ciência emancipa, liberta o indivíduo das amarras dogmáticas.

Acontece que (ainda eu perguntando) o que essa libertação e emancipação têm a oferecer concretamente a essas pessoas, em situação social e psiquicamente vulnerável, é a incerteza e o desamparo existenciais dos quais elas se esquivam, porque não toleram ficar com a ferida exposta.

Ele me responde: "na luta contra a mentalidade criacionista, é preciso que os cientistas, além da fundamental atividade de pesquisa e divulgação científica, atuem em parceria com outros segmentos da população em favor de transformações mais profundas da sociedade"

Considerando a atual crise econômica, o futuro é desalentador.

01/02/09

Mais sobre Mengele e os gêmeos de Cândido Godói


O Estadão de hoje traz uma matéria interessante que contesta a tese de que o médico nazista Joseph Mengele seria o responsável pela alta taxa de nascimentos de gêmeos no município de Cândido Godói (RS) no início dos anos 60, defendida no novo livro do historiador argentino Jorge Caramasa Mengele - O anjo da morte na América do Sul.

Segundo especialistas ouvidos pelo jornal, esse tipo de manipulação genética não seria possível naquela época. O máximo que Mengele poderia ter feito é usar hormônios para estimular a ovulação das mulheres, mas isso resultaria num maior número de gêmeos fraternos (ou dizigóticos) e o que se observa naquela população, até hoje, é uma quantidade maior de gêmeos idênticos (ou monozigóticos).

"De acordo com o levantamento feito em Cândido Godói entre 1990 e 1994 pela pesquisadora do Hospital das Clínicas de Porto Alegre Ursula Matte, a proporção de gêmeos dizigóticos (53%) e monozigóticos (47%) lá é quase equivalente enquanto o normal é de 70% e 30%. "O nascimento de gêmeos se concentra em algumas famílias. Essas têm tanto monozigóticos como dizigóticos e isso dificulta a explicação do fenômeno", diz Ursula. "Provavelmente são famílias que quando se mudaram para lá levaram a predisposição genética para um ambiente isolado. A comunidade é pequena e os casamentos acabam acontecendo entre parentes distantes. Ursula relata que fenômenos semelhantes foram verificados em cidadezinhas da África e da Índia. 'Do ponto de vista genético, isso não é uma coisa rara'."

A dificuldade em resolver o mistério reside no fato de as pessoas que testemunharam a presenção de Mengele na cidade não quererem falar sobre o assunto, então fica difícil saber se tudo não passa de um grande coincidência ou se, talvez, o doutor nazista tinha algum método realmente eficaz, mas que acabou sendo enterrado com ele.

Eu não li o livro (pelo que vi, foi editado apenas em espanhol e inglês), mas algumas questões me deixam curiosa. Pra mim não está claro se o boom de gêmeos começou logo após a chegada de Mengele à cidade. Em caso positivo, e supondo que ele realmente não tem nada a ver com a história, trata-se de uma coincidência admirável! Por outro lado, se o fenômeno já existia antes de sua chegada, não seria estranho pensar que ele se dirigiu à cidade de colonização alemã justamente por curiosidade, afinal, ele era obcecado pelo assunto. Vontade de ler esse livro.
 
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